mardi 6 mars 2018

O Homem e a Pedra

De l'encre au sang
Du papier à la peau
Maintenant comme toujours
Amen
@van.tattoo


Existe dentro de mim um homem
De rosto velho e queimado
Sísifo disse ser seu nome
Mas, se o for, ele está bem mudado

Da face toda aquela astúcia some
E dá lugar a um olhar cansado
Deuses, agora, à sua vista dormem
Capaz de nada nesse desamparo

Existe dentro de mim um homem
De rosto austero e fechado
E o pesadelo que ele vive, insone
Só de montanhas está povoado

Existe dentro de mim um Sísifo
Que não sabe mais que despencar

E cada vez que ele alcança
O topo da montanha
A Pedra diz adeus e
Sorrindo
O empurra para o abismo


"Chacun des grains de cette pierre, chaque éclat minéral de cette
montagne pleine de nuit, à lui seul forme un monde.
La lute elle-même vers les sommets suffit à remplir un coeur d'homme.
Il faut imaginer Sisyphe heureux."

CAMUS, Albert. Le Mythe de Sisyphe.

mardi 20 février 2018

Contagem Regressiva

E de tanto deixar para trás
Nada mais sobrou

Ouço passos no piso de cima. A porta do banheiro é trancada logo ao lado. Sob a porta me infiltra o quarto a luz do corredor – e as sombras dos passos a cruzá-lo. Na sala, alguém mastiga um fast food qualquer, amassando os papéis enquanto o faz, e lambuzando a tela do celular com os dedos sujos de um molho que não sei qual é. Há uma parede entre nós. Duas. E, ainda, eu posso vê-lo. Ele lambe os dedos. O celular vibra. Ele corre as mãos pela lateral das calças, a cabeça meio inclinada, e o procura por sob as almofadas amarelas. Quem sou eu na cabeça dele? Eu me pergunto... Quem é ele que não sou eu?
Outro pedaço meu se vai com o último ruído dos papéis pardos do lanche.
Agora, nada mais se move.
As frutas de plástico brilham na bandeja laranja da mesa de centro. O vermelho da textura das paredes grita um grito abafado pela penumbra, assombrado pelo vão escuro de todas as cinco saídas daquela sala – como se ela flutuasse no meio do nada e qualquer janela fosse uma passagem para uma queda infinita.
Posso pular? Pergunto, tomando o cuidado de não deixar que me ouça. Aperto os lábios e mordo as bochechas. Na poltrona, o estofo estampado – com ares de pop art – destoa do estilo classic da sala. De frente para ele, ali, de pé, no escuro, posso sentir cada engrenagem se preparando para um novo parto. Sai o eu que lambuza os dedos, nasce um eu em uma dimensão qualquer, de batom escarlate, que escuta Your Heart is as Black as Night com a cabeça jogada para trás. É tarde da noite, e ele se levanta, fechando a porta atrás de si. Engolido pelo vácuo, ele vai fumar sozinho pelas ruas, ou no canto de um bar barato. No sofá, atrás de mim, vejo esse outro que se levanta e sobe as escadas de ferro que o nada esconde. Sem chinelos, de camisola, ele agora sente frio na varanda enquanto escreve poesias com a caneta que acaba de puxar do cabelo.
O relógio faz o som estridente de quem cruza de novo o doze. Cada um desses vácuos já me engoliu uma vez. Ou diversas. Não sei dizer. Enquanto não descubro, continuo aqui. De pé. Sozinha. Encurralada entre vácuos. E aguardo.

Aguardo, um dia, a coragem de saltar.


"alguma vez                                 .
alguma vez talvez
eu irei sem ficar-me                    .
eu irei como quem se vai."
(Alejandra Pizarnik)

samedi 20 janvier 2018

Vermelho


GAIMAN, Neil. Sandman 43, Brief Lives III, p.26

- 'When I dream, sometimes I remember how to fly', said Chloe.
- 'When I dream, sometimes I remember how to die.', I answered.


****



Os quatro entraram pela lateral da sinagoga, recebendo no rosto uma lufada de ar quente. Ela, a ruiva de coque e com a manta de lã no sobre a blusa bordô, entrou primeiro e sentou-se em um dos bancos vazios de madeira, dobrando seu casaco preto sobre o colo. O rapaz de longos cabelos castanhos e jaqueta de couro sentou-se ao seu lado. Os outros dois ainda estavam de pé no corredor, e os quatro cochichavam sob o olhar de esguelha da velha trajada de preto e de cabelo despenteado que rezava debruçada sobre o encosto do banco.
- O que a gente faz agora? - disse o rapaz.
- Shh! Fala baixo, João! - cutucou-o a moça ruiva.
- Agora vocês oram. - rosnou a voz aguda da velha.
A garota de cabelos castanhos e de lenço xadrez cobria a boca com as mãos, sem fôlego e tentando não rir, enquanto o rapaz no banco olhava ao redor e continuava falando:
- Mas eu estou dizendo! Escuta só, parece um bando de cachorros gemendo.
Fez-se silêncio.
A moça ruiva corou.
- Eu não acredito. Vá lá pra fora. A-g-o-r-a! Você perdeu a noção?!
De um instante para o outro, todos no lugar olhavam-no, frios e inexpressivos.
- SAIA DAQUI! SAIA DAQUI! - Berrava a velha.
Os três saíram pela porta dos fundos, mas a ruiva continuava sentada, olhando para baixo. Demorou-se ali ainda um pouco, observando. Quando saiu, tomou a mesma direção que eles, rumando para os fundos, mas, vendo-os reunidos de pé na escadaria, apenas contornou-os de longe e esgueirou-se pelo portão, sozinha. Percebeu ter deixado o casaco para trás, mas preferiu não entrar ali mais uma vez. Puxou as mangas vermelho escuras da blusa para cobrir as mãos, já empalidecendo pelo frio, e saiu andando contra o vento. Não fora um bom primeiro dia de passeio, fora? Não, nem um pouco.
Na calçada oposta, um casal desce a rua, todo de branco, com calças e blusas largas e golas extravagantes. Havia listras de um amarelo berrante nas calças de um deles, e o outro trazia luvas vermelhas de bolinhas e o rosto pintado. Bem à frente, no topo da rua, um outro grupo: três pessoas também vestidas de branco e roupas largas com frisos e marcas em cores extravagantes.
Jovens. Pensou enquanto seguia.
Ela já terminava de subir a rua, mas meneou a cabeça com um sorriso impotente e deu meia volta.
- Jovens. - Repetiu. Dessa vez em voz alta.

Entra no pátio da sinagoga pelo portão lateral e dirige-se às escadas do fundo, tendo tempo apenas para perceber a confusão de braços e murmúrios e vultos apressados. De algum modo de que não se dera conta, uma corrente branca e cheia de cores se fechava em torno do lugar. Seus amigos estão para fora. Ela está para dentro.

Pelo corredor ainda não fechado entre aquela corrente humana cujos rostos não pode ver e as paredes, ela corre, e dá a volta até encontrar aberta uma pequena porta cinza e descascada. Antes de se virar para lá, ela olha para trás, e por uma longa fração de instante ela percebe os olhos sob uma das máscaras, uma lisa e brilhante – olhos frios, enquanto os dela já ardem, avermelhados, sem perceber que choram. Ela sabe que ele sorriem. E corre.
É um quartinho estreito e escuro o cômodo em que ela se fecha. Tateando sobre panos empoeirados, não demora a tocar a parede oposta, com um riso nervoso de alívio.
Ela espera.
Os sons de passos pesados já se dissiparam.
E ela espera.
Há pequenos rasgos na sua calça, na altura da coxa, e ela se pergunta como pode ter sido atingida ali.
E espera.
Brinca com os dedos nos rasgos da calça enquanto tenta, cismada, refazer seus movimentos até ali.
E espera.
Ela sabe que está encurralada.
E espera.
Nos seus ouvidos, seu coração soa quais tambores de guerra.
E espera.
Então um feixe da fraca luz da noite a encontra.
E ela não espera mais.

Pela fresta de uma entrada de cartas, um par de olhos a encara. Sorrindo.
- Abre aí, pra gente, meu amor.
Ela não se move, e apenas observa enquanto a fresta volta a se fechar e os barulhos de golpes começam. Nesse momento a luz repentina a cega.
Ela não se lembrará de nada depois disso.

****

- As unhas... as unhas, as unhas, é para ninguém saber. – Ela olhou para cima, tendo puxando distraidamente um pedaço de unha pendurado no dedo do pé.– Sshhhh!
Ela está sentada no chão, fechada, de um lado, por uma parede cor de abóbora, e do outro, por um par de colchões colocados de pé, por sobre os quais se debruça um rapaz comprido de rosto magro.
Ele roça o dedo de leve pelo ombro dela, onde há um rasgo profundo, enquanto ela continua respondendo a um questionário que ninguém mais lhe faz.
- Não! Não mexa nele. – E sussurra, olhando as manchas vermelhas no colchão sujo e acariciando o ombro, espalhando mais sangue pelo braço. – Eu preciso dele para saber o caminho de casa. Da minha casa. Pra saber. E... Sim, sim, sim. A-ha. A-ha. Sim. - ela repete, meio aérea, e sorrindo, soltando pequenas gargalhadas que são como soluços. E então seu rosto fica sério. - Sim. Os pregos, os pregos são pra eu não me casar. – Ela olhou para cima de novo, e o sorriso dela, naqueles lábios pintados de vermelho, era lindo.
Ela gira as mãos em frente aos olhos enquanto fala. Ao longo de cada dedo há dois pregos, cruzados sob a pele em direções opostas, e ela roça por eles as pontas dos dedos com certo carinho. Nesse momento, ele corre os dedos pelas ondas vermelhas do cabelo dela, e passa as mãos de leve em sua cabeça.
- Muito bem. É isso mesma, querida. Você é incrível. - ela sorri, olhando para ele, com orgulho. - Mas agora estamos quase acabando, não é? Eu preciso ir embora.
Eles se encaram em silêncio por um instante, e então, sem tirar os olhos dos olhos dele, ela morde o canto dos lábios, tímida.
- Mas... eu queria mais um corte. Só mais um. Você podia fazer... Só mais um. Um cortinho. Não vai doer.
- Não, meu bem. Minha parte acabou. Mas eu vou te deixar um presente.
- Você vai me dar uma das suas tesouras? Eu gostaria de tesouras… tesourinhas, pra eu brincar - ela sussurra, baixando os olhos.
- Isso, meu amor. Eu vou sair por aquela porta, agora, e você vai ficar aqui, brincando quietinha, não é?
- Sim, eu quero brincar. Brincar. Só uma tesourinha. Uma só. – Sem conseguir dobrar os dedos, ela aproxima uma mão da outra.
Ele a observa pelo instante de silêncio que passa por eles.
- Eu vou te dar um bisturi, querida.
Seu rosto distraído pelos pregos, com mechas de cabelo confusas sobre os olhos, se abre em um sorriso de inocente deslumbre, radiante que era como o sol nascente, naquela hora em que o céu é um mar fervente de lava e nuvens. – Um bisturi?! - E fica a fitá-lo sem perder o ar sonhador dos olhos ou o sorriso inocente da boca.
Quase sem se mover, ainda debruçado sobre os colchões encardidos, ele puxa do bolso de trás das calças uma lâmina curta, de cabo meio curvado, todo de metal. - Pegue aqui, meu bem. - Ela procura ajeitar as mãos ao redor do cabo e puxa-o para si. Seus olhos brilham.
- Eu vou ficar brincando, agora. Eu adoro bisturis. Sim. Você disse que eu adoro, não é? Porque é, mesmo, eu adoro. Olha… um bisturi… Eu vou…
À porta, o homem volta a vestir sua máscara, coloca de novo a calça branca por cima do jeans e lança um último olhar para trás. Vê ali um quadro paradisíaco, pintado todo em neve e sangue, e um rosto lindo e sereno emoldurado por ondas de sangue e cabelo. Seus olhos marejaram.
Prestes a fechar a porta, ele também sorri.
- Que coisa linda, meu amor. Que coisa mais linda.
E segue descendo o morro lentamente, até ser engolido pela escuridão.

****

Com um pequeno tremor de emoção, ela havia corrido a lâmina com firmeza lucida pelo pescoço, abrindo ali um outro par de lábios, escarlates, que derramam beijos de sangue pelo seu pescoço e até o seu decote.
No rosto, ele vira não um sorriso de delírio ou de inocência, mas a beleza perturbadora de um sorriso da mais genuína felicidade.

****

"Deep in the cell of my heart I will feel so glad to go..."
(The Smiths, Asleep)

lundi 20 novembre 2017

Suspensão

Hope (1886), George Frederic Watts

Naquele dia
Suspendeu-se o medo
E ela
se entregou
Como se não morresse

Naquele dia
Ela vestiu as asas
Penduradas na janela
E fingiu voar
Como se não despencasse

Naquele dia
Ela deslizou por entre
Aqueles braços
E caminharam entrançados
Como se ela amasse

Naquele dia
Ela não fechou
As cortinas
E dormiu de olhos abertos
Como se o amanhã chegasse

Naquele dia
O dia acabou
E o sol se pôs
Como se existisse

"I would like the sky but there's no reason why
[...]
Wish that I could feel
But now I don't even know if I'm real..."
(JF, Untitled#3)

lundi 25 septembre 2017

Sobre a Deriva

Carta n + 1



Boa noite, querido,

não, não feche já. Serei breve. Eu prometo.
Sabe que já são raras as minhas visitas. Ainda assim, eu sempre volto - ou seja talvez você quem volte. Eu tenho estado cada vez mais distante deste porto que éramos. Que eu era. E, desta feita, vai ficando também mais difícil retornar para descansar as pernas. O mar é lindo, querido, mas não é meu lar. Ainda. Ou talvez não o seja nunca. Não sei. O mar é lindo, mas não serve de abrigo aos que só sabem naufragar e, mesmo quando à deriva, não posso deixar de sentir o fogo do sol me consumindo a garganta. Essa lembrança não me deixa. Esse gosto de morte.
Não, não se inquiete. Malgrado os naufrágios, eu volto. Sei que essa terra não é mais meu lar do que o mar, é apenas que vê-lo me salva de me afogar, me ajuda a respirar. Você também sente? Esse fio invisível, essa corrente etérea a nos unir, a se esticar e retorcer, mas incapaz de se romper? Ainda que nossos pés não se calcem, tua sombra me subjaz, teu ser, que sou eu tão fundamentalmente. E a terra que me salva é a mesma que me prende, e eu não sei nadar longe, essas outras ilhas não são minhas - e as minhas têm tubarões.
Não, não, está tudo... quer dizer, são somente tubarões. Não são grande coisa. Aqui, já com os pés na água, vejo-me a sombra a alongar-se até o infinito, traçando seu percurso solitário por sobre as pedras e a terra. Não é mesmo o melhor dos lugares, mas, sempre que o canto das sereias canta em minha cabeça, dizendo-me que parta de uma vez por todas, eu fecho os olhos, e o mero som das outras ilhas - e são tantas! - me faz enrijecer. Eu sou tão incompleta ali. E sempre. E percebo que essas beiradas sombreadas e cheias de aranhas são o mais próximo de um lar que jamais encontrarei. Acho que você estava certo: nós nunca estamos preparados.
Despencaram-me no mar, e o mar é lindo, querido. Você não poderia sequer imaginar quantas são as cores, e as danças dos peixes, e o cheiro das ondas. Mas não fui munida de barbatanas ou caudas. Tampouco de sangue frio. Não me deram forças para tantos naufrágios. Deram-me apenas um porto que não me responde mais.
...
Sim, eu sei.
Eu bem queria não mais naufragar. Mas não é para mim omar.

Obrigada pelo seu tempo, querido. Sabe, eu gosto de imaginar seu silêncio quandos meus tubarões me chamam...
Não, não se esconda. Não vou te abraçar. Guardarei os braços para o mar.



lundi 4 septembre 2017

Em Primeira Pessoa


"O tempo passado embaralha meu tempo presente.
Preciso encontrar meu tempo futuro."


Self-Portrait ; 02.09.2017
"There is no time, there is no face, there is no me
I'm following a shadow while I'm reaching for the sun" (Stranger ♪ Anna von Hausswolff)
 ***
Aniversários.
Eu tenho esse longo histórico de desagrado com eles, cujo início não posso bem precisar, e essa desaprovação já passou por várias fases. Já os repudiei por filosofias (ah, o niilismo. ah, o Absurdo!), por desgosto, por psicologismos, por desânimo, por lógica, por desesperança, por clima (ah, o sol, ah, a primavera!), por ideologia, e por um sem conta de outros "des-".
"My heart is sad and ugly
Am I boring you?
Am I scaring you?"
Cada desses motivos, fique dito, não anula a verdade dos outros. São acréscimos. Cada deles tombando suavemente sobre o camelo - um camelo que se recusa a tombar e, ainda assim, não mais pode suportar as penas.
"And as I look upon your face I see it in your eyes:
You're not longer part of this"
Esses (des)aniversarios nunca passaram despercebidos por aqui, apresentando-se sob as mais diversas fantasias. E assim seria. E assim é. Mas autrement. Porque eu escrevi muitas coisas sobre tudo, e eu poderia pegar qualquer delas de olhos fechados e vomitá-la aqui. No entanto, mais uma vez, de repente, tudo ficou tão vão e sem propósito que... por quê?
"This world is closing in, and while I don't feel a thing"*
E eu, assim, de súbito, peguei-me pensando na arte, no que é a arte, nas formas de se ver a arte, nas formas de avaliar a arte. Parte obrigatória da trilha sonora da minha existência, Anna von Hausswolff vêm cantando em looping nos meus ouvidos nas ultimas semanas.
"Celebrating life alone"
, ela começa, e enquanto ela prossegue para
"the graveyard is my home"
, eu decido que, quando o melhor texto já escrito sobre aniversários fosse escrito, ele sem dúvidas começaria com essa canção. Há cerca de um mês, falávamos eu e um amigo sobre fantasias e projeções de morte. A ideia é atraente, eu dizia, a 'morte' se parece com um lugar de paz. E de segurança. E de fôlego. Nesse momento, Anna canta de novo em minha cabeça, e
"she is running and she can't stop"
fica ecoando, sem cessar, até o climático
"death should not be a fear.
So save me"
, e é como um gole de chá fervente no inverno: desconfortável, dolorido, e acolhedor. E eu sempre me pergunto, ouvindo esses versos, se a personagem que canta pede que a salvem com a morte. Não posso saber ao certo, mas gosto de entender que sim. Sim. E se sim, indago, como pode em outro estar a minha voz? Quem os permitiu me comporem assim? E o quão simplista e pobre é isso, de basear-me apenas na identificação ao falar de arte? Eu gosto sinceramente de acreditar que muitos aspectos da arte podem ser observados de forma objetiva, mas, particularmente, eu não sei evitar que cada livro, cada curta, cada sinfonia sejam, inescapavelmente, sobre mim. Sobre a minha história que ajudam a contar.
"Seeing through a crack of life, did you get it alright?"
Há poucos dias, em um debate sobre o suicídio, o "palestrante", Carlos Cais, comenta "quem diz que nunca pensou sobre a morte, ou está mentindo ou é idiota". E ele o diz logo após uma menção a Camus, n'O Mito de Sísifo, e sua defesa do suicídio como "o único problema verdadeiramente filosófico", afinal, a questão mais importante de todas é "para quê vivemos?". De fato, a ninguém apetece muito verbalizar "pensamentos ruins", ninguém sabe como reagir aos que o fazem. Pedirei que atirem pedras, então, porque meus olhos vêem a morte em todo lugar
"this state of chaos suits you" *
, e porque cada olhadela ao relógio me mostra não ponteiros e números -
"Faster I am now growing old"
-, mas o fio de uma guilhotina que ficou segundos, minutos, dias mais próximo. E que, no entanto, por vezes parece tão longe, mas tanto, que não sei se restará fôlego para esperá-lo.
Pelo sim, pelo não, digo à Anna que continue. E ela continua:
"I sleep away the horrors of the night
And when I wake
I realize it's all there"

Nesse passo, chego ao cinema - um pequeno ensaio de celebração -, a uma trilha sonora que me pôs um balão no peito, e a Charles Aznavour. E, num repente, depois de semanas cantando mentalmente Funeral for my Future Children na hora de assoprar as velas, eu percebi ser ele quem eu queria. Ele, que faz muito mais jus aos meus duzentos e tantos anos do que a jovem Anna, desses tempos contemporâneos. Era uma cena qualquer quando eu comecei a ouvir
"Hier encore j'avais vingt ans
Je gaspillais le temps en croyant l'arrêter"
e também
"Car mes amours sont mortes avant que d'exister
Mes amis sont partis et ne reviendront pas
Par ma faute j'ai fait le vide autour de moi".
O filme acabou e eu continuei na sala. Abraçada pela cadeira, digerindo, não o filme, mas aqueles versos. A cada cena, eu apenas esperava mais um trechinho da música pra conversar comigo.
"Ou sont-ils à present, à present mes vingts ans?"
Mas isso ela não quis me dizer. Sei apenas que, em frações de instantes, o filme era eu. O que me leva de volta a todo aquele questionamento sobre a arte, e sobre haver um jeito certo ou um jeito errado de experenciá-la. Por que eu gosto assim. Eu gosto de odiar aqueles que me tomaram as palavras, que disseram tão exatamente o que eu deveria ter dito - ou o que eu ao menos gostaria. Eu gosto de ver minhas fissuras nas fissuras de outros
"what if we lose, what if they know we're too weak?" *
e de compadecer-me por eles o que não padeço por mim. Eu gosto de remendá-las, e de vê-las cicatrizando frame a frame, verso a verso, nota a nota.
"He said "Come wander with me, love"
Come wander with me
Away from this sad world"
Eu gosto de pensar que são, e, naquele intervalo, a inércia não dói, contrariando as observações da Morte, de Zusak, de que
"Os empobrecidos sempre tentam continuar andando, como se a relocação ajudasse. Desconhecem a realidade de que uma nova versão do mesmo velho problema estará à sua espera no fim da viagem — aquele parente que a gente evita beijar"
. Nós sabemos, Morte, que o mesmo abismo nos encontra ao fim de todas as trilhas, e que ficar não impede que as coisas acabem, como partir não impede que prossigam. Mas é como estar em alto-mar, entende? Se pararmos, por um segundo que seja, se hesitarmos por um nadinha de tempo, afundamos. E não queremos que doa.
"The pain turn to rain
Ain't calming down
Will it calm down?"

Quando a noite caiu, assoprei as velas, como manda a tradição. O bolo tinha gosto de cinzas. Não, não era culpa das velas: é só que aniversários costumam ter gosto de morte.
"But, you can't seem to find time
And you loose it all the time
You can't keep tracking your time
You loose it. All the time
You loose it all the time
You loose it all the time, the track of time."

***

Eu recomendaria fortemente que ouvissem algo da Anna von Hauswwolff, do Diablo Swing Orchestra (marcadas com *) - país de origem é mera coincidência -, e do Azanvour, é claro. Escolhi duas canções (apenas por não ter sido capaz de escolher dentre elas) que parecem parfaites.
 
"J'ai fait tant de projets qui sont restés en l'air
J'ai fondé tant d'espoirs qui se sont envolés
Que je reste perdu ne sachant où aller
Les yeux cherchant le ciel mais le coeur mis en terre"

 
"A dream is pulling out my heart and spirit
And I'm scared to fall, I'm scared of death
And I am scared of all the lies
But then you tell me I shouldn't worry
You tell me to stay strong
You tell me I shouldn't worry"

samedi 2 septembre 2017

A morte e morte de Mary Jane Berro D'água

MARY JANE, MY DIVA QUEEN, O TEXTO É STYLE MEANARION MAS A INTRO É JAVALI TOTAL. HOJE É SEU ANIVER E EU TENTEI SER BEM MARÔJENIA: NEGATIVA E DE MAL COM A VIDA. PENSE COMO A MARY JANE PENSARIA. MAS EU NÃO CONSIGO DEIXAR POR ISSO E NO FINAL TEM UM P.S. BEIJO ABRAÇO E BOA MORTE. 

Alongou?

O ressoar dos meus saltos no chão azulejado me faz ansiar o dia em que seria eu o centro das atenções. Deitada, no meio da cozinha, ela dorme. Faz sua prisão de madeira parecer a mais confortável das camas. O zumbido constante de dezenas de pessoas em choro inconsolável me faz odiar, cada milésimo mais, as convenções sociais. E cada átomo angustiado do meu ser me lembra dela. Da pessoa que, há 3 dias, não mais bombeia sangue, tampouco goza de funções cerebrais. Desde então fora colocada em uma vitrine, no meio da sala de casa, como um animal recém empalhado. O momento que deixara um par de olheiras nos meus olhos mortos, um par de costelas gritantes, um par de horas confabulando e chorando vagamente, finalmente havia chegado. Como não havia taças de champanhe para bater meus garfos de prata, chamei a atenção da minha plateia tossindo patologicamente. Olhos vermelhos, desanimados, impotentes e tediosos pousaram nos meus, indicando que começara o show de horrores.
''Maria Eugênia. Ela está morta, e nada que eu diga aqui, lá, sentada, em pé ou dando cambalhota, a ressuscitará. Minhas palavras dificilmente serão proferidas a fim de que ela as ouça. Hoje falo para vocês, que não sabem quem está dentro do caixão, e por que diabos vieram a esse velório. Meus pêsames. Meus sentimentos. Que vocês um dia encontrem conforto. Maria Eugênia se foi, e me deixou sozinha pra lidar com as obrigações sociais. Hoje, descabelada e menos inteligente, me sinto tão sozinha quanto vocês. Não chego a tal ponto pois ainda a sinto sussurrando quão bom é tal livro, quão estridentes são os tios, quão amigo é o escuro. Foi ela que me ensinou a gostar do silêncio, e de músicas que me fazem sentir saudades do silêncio. Encheu nossos momentos de prima-irmã com comentários pontuais, risadas descontroladas, desabafos aleatórios e críticas impiedosas. E eu estou imensamente feliz. Hoje ela me deixou, deixou muitas outras pessoas, e seria um egoísmo imensurável sentar em um canto escuro e chorar como se fosse o pior acontecimento do século. É o final feliz de um longo affair com a morte." 
Expressões chocadas, indigestas, estupefatas, enquanto saio pisando levemente. Um desfecho apropriado para a pessoa que hoje não mais respira.

Mary Tets Gonçalves

P.S.: Mais um 2 de Setembro, mais uma rosa colhida no jardim da vida, mais um drink de sangue tomado no cemitério, mais um dia que essa prima maravideusa expressa seu amor incomensurável pela aniversariante do dia. FLOR DO MEU CORAÇÃO E DO MEU VIVER, parabéns bjs.
Trevismos + fofurismos = Maria Eugênia

samedi 26 août 2017

Manicure


"Our race into the night, my friend, has barely begun..." 
('How Many More of These?', Mikael Karlsson)
John Milton, Paradise Lost [Frankenstein's epigraph]


Sem muita graciosidade a toalha se desenrola e ela vê, sem emoção, os pedacinhos brancos caindo sobre a água e uma fraca nuvem de pó se dissolvendo.
Missão cumprida, pensa. Mais uma semana. E vai rasgando as linhas do seu calendário mental enquanto dobra a toalha.
- Que existência estúpida.
Ela o diz despertando num repente de seu mover-se mecânico e de seu olhar inexpressivo. Aquelas lascas de unha cresceram por, quanto?, uma semana? Menos? Apenas para serem cortadas e dispensadas. Que fizeram além de partirem-se, sujarem-se e enroscarem-se em qualquer coisa? Para que existiram além de tornarem-se em incômodo e despertarem nada mais do que o profundo desejo de serem destruídas? Talvez tenham sido úteis contra algum cravo ou espinha, mas somente para substituí-los por feridas mais profundas. Talvez tenham sido úteis para o rompimento de um lacre qualquer, para descolar um adesivo velho, mas tanto para tal servem, que partem-se em seguida e não podem ser usadas uma segunda vez. Talvez tenham sido úteis para ferir alguém, mas... ora, não sejamos tolos! Não é preciso ser muito talentoso ou especial para tanto, é?
E só.
Ainda assim, crescem. Uma semana. Outra. Crescem ainda.
Crescem e se descascam crescem e se desgastam crescem e se despedaçam. Definham. Por uma semana - quanto muito. Na única finalidade de morrer com um movimento de dedos que mal dura um átimo. Que foram? Quem foram? Uma semana de nada?
- Que existência estúpida. Repete sem ver que olha o espelho.
Uma semana. Outra. Segue-se ainda. Indo-se as unhas pela descarga indo-se os cabelos pelo vento indo-se os pés no asfalto indo-se o corpo pelo ralo como um chorume que escorre de sua vida espremida pela contagem regressiva. Vai-se o peso, vai-se um certo brilho, vai-se a vontade de não querer se ir. Todos os dias vão-se no tempo e, a cada semana, quando assopra para longe mais uma fileira de seu calendário imaginário, quem foi? Que foi? Que fez além de enroscar-se em tudo até ser nada além de incômodo? Que fez além de perder uma semana de chances de ser um algo qualquer? E outra. E outra.
Nada. Francamente! Nada. Agarra o vidro de acetona e a caixa de algodão.
- Que existência estúpida. Ela diz.

vendredi 14 juillet 2017

Januarius

Sobre Carlottas, Christines, e um São Jorge que terminou Dragão
Lisbonne, Jan.2016


PRÓLOGO
 Tudo aconteceu muito depressa. Essa história não durou mais do que uma lua. Menos de um cinquenta avos de ano. Uma fração tão pequena e banal de tempo contendo, ainda assim, evidências que bastem do abismo entre a linhagem real habitante do Castelo Chaboureau e a plebe que rodeia seus muros.
A título de exemplo, o número de autoridades e outras realezas cujas mãos apertaram o povo-de-dentro ultrapassa em muito o número daqueles que o povo-de-fora jamais verá mesmo pela televisão ou pelos jornais. Tudo isso graças a frações ínfimas de tempo como essa. Cada um desses sete dias, cada uma dessas semanas acrescenta-lhes uma experiência de anos e é isso, muito mais do que genes e sangue, o que distingue os Chaboureanos de seus pares. É isso o que faz dos Chaboureanos Chaboureanos.
Sangue quente e mente fria. Potencial e realidade. Contrastes. Paradoxos.
Ei-los.
 
ATO I
Nesse espetáculo acontece algo um tanto peculiar: entra primeiro todo o elenco, que toma assento nas poltronas e cadeiras e mira as solenes cortinas vermelhas que escondem, sobre o palco, seu público. Este aguarda de pé, com ares de estrela e confiança de reis, que essas cortinas se abram completamente e que os aplausos dos atores findem.
A primeira cena se inicia, e à ela seguem-se outras e mais outras. Declamações um tanto inexpressivas, muitas vezes mal ensaiadas. Parecem não saber muito de coração. Evidentemente, nada inesperado quando se colocam no palco amadores despreparados para a peça que representam.
Do lado oposto, assentados e mirando-os impassíveis, raramente deixando-se levar pelas rimas pobres dos pretensos artistas, os verdadeiros atores apenas aplaudem, polidos e discretos quais Christines, as Carlottas extravagantes sobre o palco.
Ao final, porém, hão todos de convir: o desafio é fraco. Chega a ser injusto.
As Carlottas podem deter holofotes, mas é conhecimento de todos que apenas as Christines cantam de verdade. Um observador não necessariamente atento perceberia a discrepância entre a afinação de quem fala do palco e de quem fala das poltronas desse teatro.
As prima donnas não foram escaladas para encenar, hoje - concluem todos. Ficaram assentadas as verdadeiras realezas.
Cada uma um São Jorge, de lança em riste e cavalo branco selado, ávido pela batalha.

 
ENTREACTO
 As cortinas descem, para ambos os lados. O desapontamento para os desejosos de brandir sua lança ainda um pouco versus o alívio dos outros já muitas vezes atingidos.
Sobre os figurantes no palco, dir-se-á que na próxima encenação terão trabalhado para suprir a desenvoltura que faltou a essa. Muitos gostariam de crê-lo, sim. Conhecemos, no entanto, esse bicho de viseiras que é o humano, e sabemos mais provável ser não terem reparado nos olhos feridos dos espectadores, e ter-lhes passado desapercebido o ceticismo na voz das Christines que os contemplavam. Nunca aprenderão que seus títulos não servem de máscara quando na platéia não há amadores.
Basta, aqui, de figurantes. Ponhamo-los de lado, que é hora de retomar o fio dessa história, e na cena seguinte eles não entram.
 
ACTO II
Essa parte começa na penumbra de um camarim silencioso. Distingue-se entre os vultos objetos diversos: cabides, frascos, uma capa que pende, a forma abobadada do que deve ser a saia rodada de um vestido de gala. Cada movimento faz cintilar pequenas vidrarias e brilhantes. E ao longo dos rodapés emergem formas volumosas do que sejam mais provavelmente as caixas dos instrumentos calados.
Esse ato não acontecerá sob holofotes.

O chão agora é todo dos atores - os reais. De cara limpa e em mangas de camisa. Não há púlpitos no plano de fundo. Eles se aglomeram, piscam-se momentaneamente, e num repente explodem em dessincronia perfeita.
Cada voz incita o despertar - literalmente. E elas não são poucas. Levam os punhos às portas, que ressoam quais tímpanos. O bater de suas centenas de pés ecoa, deixando sua marca na terra como no ar. Talvez seja a lua invocando os lobos dos homens.
Talvez.
 
A matilha se aproxima e se afasta, deslizando, saltando, bailando, voando. Desenfreada. E nas tocas profundas onde ainda é inverno, ela grita o verão contra os animais a hibernar. O que denunciou a fome, no primeiro ato, deita aqui ao lixo pratos cheios e frescos. O que denunciou a desigualdade, no primeiro ato, veste-se aqui de mãos escravas. O que denunciou a tirania, no primeiro ato, massacra aqui com sua voz os silêncios ao redor. Na calada da noite ele veio para violá-los impiedosamente.
Onde toda aquela polidez? Onde todo aquele clamor pela ordem? Hibernem, quem sabe, nas tocas, como os animais que ficaram.
EPÍLOGO
É noite de chuva e o jardim da praça Eduardo VII estende-se como ao infinito, seu extremo invisível através da parede de neblina que borra mesmo as lâmpadas dos postes mais próximos. Por trás dela, lá na distância, sei erguer-se imponente um Marquês, tão herói deste lado do mar como foi vilão do lado oposto. Do mesmo modo, as paredes da Assembléia celebram em cores tropicais as bestas que um dia repudiaram.
Talvez seja cada ser humano uma pequena biblioteca, daquelas Joaninas. Na fotografia fica registrado o esplendor: ouro nos pulsos, ouro nos pescoços, ouro nos ombros, ouro nas frontes. Ao passo que ignoradas ficam as comichões dos morcegos que alçam vôo tão logo as luzes se apagam.

Ainda aqui do muro, um cavalo surge reluzente do abismo de sombras sobre o qual pendem meus pés; ele galopa no silêncio da meia noite e traz em seu lombo São Jorge. Pergunto-me se não é efeito da névoa, mas quando se afasta, dando-me as costas, e vejo-o integralmente, descubro espinhos nas costas que me dá, e vejo uma cauda escamosa onde deveria ver seu cavalo branco. Um vento estufa seu estandarte e reconheço nele a divindade do Castelo. O deus porteiro.
Janus.
Desço do muro e, sob a chuva, retorno calmamente à minha toca.




.*.*.*. 

Nota: Em Janeiro de 2016, a universidade em que eu estava estudando organizou a École d'Hiver, uma semana de palestras, visitas e debates de cunho político, desta feita em Lisboa. A contrapartida pedida aos alunos era uma apenas: um registro da semana para figurar no livro que montam anualmente, com os relatos das Écoles d'Hiver de cada ano. Fotos, desenhos, poemas, contos, ou apenas uma descrição em poucas linhas da atividade favorita da semana. Pois bem, este foi o meu.

lundi 12 juin 2017

The (L)only Valentine


Noutro doze de junho com amor e sem par
O badalo dos sinos pára aos dezesseis
Pr'essa mesa vazia não ouvi chamar
O café desta tarde eu não vi quem fez

Nas ruas as vitrines vejo cintilar
Da florista os botões eu recuso, cortês
Falta o gosto de tudo no meu paladar
E os papeis de batom são os meus dessa vez

Põe com esmero a mesa, não a deixa nua,
Quando dos seus cafés d'outro lado das serras,
E escuta-me a voz como escuto eu a sua.

E que o peso e a saudade de andar nessa terra
Entre braços em laço a gente diminua.
E, aqui, nesse abraço, a poesia se encerra.

 -:-

.12.06.2017.
Fellz uma vida inteira. 
E que doze versinhos tortos bastem
Pra dizer todo o resto.