lundi 12 juin 2017

The (L)only Valentine


Noutro doze de junho com amor e sem par
O badalo dos sinos pára aos dezesseis
Pr'essa mesa vazia não ouvi chamar
O café desta tarde eu não vi quem fez

Nas ruas as vitrines vejo cintilar
Da florista os botões eu recuso, cortês
Falta o gosto de tudo no meu paladar
E os papeis de batom são os meus dessa vez

Põe com esmero a mesa, não a deixa nua,
Quando dos seus cafés d'outro lado das serras,
E escuta-me a voz como escuto eu a sua.

E que o peso e a saudade de andar nessa terra
Entre braços em laço a gente diminua.
E, aqui, nesse abraço, a poesia se encerra.

 -:-

.12.06.2017.
Fellz uma vida inteira. 
E que doze versinhos tortos bastem
Pra dizer todo o resto.



dimanche 30 avril 2017

Sobre (cre)ser monstro I



(As palavras, no entanto, pararam de importar...)

Eu me lembro das fases de meu ateísmo, de como as palavras pareciam não mais ter sentido, por menos capaz que eu fosse de contradizê-las.
Como estar certa contra tantas multidões?
Como estar certa contra tantos séculos?
Como estar certa contra mim própria?

Eu me lembro das fases de meu ateísmo, de como ele, de início, fora somente sensações. Ou, talvez, é claro, dessas suas ausências.
Culpa minha,
Da minha frieza,
Desse meu eu quebrado que nunca soube sentir das cousas.
Culpa minha,
j'était trop jeune pour savoir l'aimer*,
e a transcendência - eu me dizia - viria como a sabedoria da idade.

Não vinha.

O tempo escorria.
O tempo me atropelava.
O tempo me esfaçelava as chances de experimentar daquela magia.
Eu repetia as preces, e as palavras me eram duras na boca. Eu recitava um perdão agoniado e confuso, e implorava a uma criatura que eu não enxergava perdão por não enxergá-la.
Não é minha culpa - eu lhe dizia.
Mas era.
Eu sabia que era.

Nunca, nem por um instante, pensei se um qualquer algo pudesse estar errado no que me disseram
para sentir, e seguir, e crer.
Eu era o problema.
Eu sabia que era.
Eu era tudo errado.
Eu sabia que era.

E ninguém me podia salvar de minhas próprias ferrugens e todos ficariam do lado de Deus e deus não amava descrentes e ele me mandaria embora com uma cruz na testa.
Eu não queria ser mandada embora com uma cruz na testa, mas, para tanto, precisavam acreditar
- todos -
que eu era como eles.

Eu me lembro das fases de meu ateísmo, de como sempre foi sobre os outros. Sobre ser um monstro aos olhos dos outros. Sobre eu, errada, visível aos outros.
Eu não sabia o que era que havia de errado com monstros, sabia apenas não querer ser um.
Monstro.
E todas as noites eu rezava
Sete Ave-Marias
Por uma boa
Morte.

Amém.




*SAINT-EXUPÉRY, Antoine de.  O Pequeno Príncipe.

lundi 13 février 2017

Criogenia

A casa nova jaz na esquina da próxima quadra, na maior das avenidas, atrás daquele mato alto. Ali dentro há sonhos estuporados. Plastificados. Os planos eternos se esfacelam, infestados de cupins. Muito me admira vê-la ainda de pé.
Mais me admira dizê-la ainda 'nova'.

Toda a minha existência tem sido que uma experiência de quase-morte. De longe, vislumbro-me, e aquele corpo não é meu, aquela voz não conheço, e quando foi que ela aprendeu a sorrir assim?
A casa nova mudou de donos. Eu mudei de casa nova. Tantas vezes. E há tempos que me pergunto em qual delas eu fiquei.

Ou em qual delas eu parti.

Aqueles sonhos continuam em algum lugar
anacrônicos
deslocados
irônicos
destroçados
A cada dia fica mais difícil fazer-lhes uma ponte para o agora. O aqui. Ou qualquer algo mais aparentemente real. O tempo todo eu os ouço chamado, e todas as noites, antes de dormir - ou talvez, em vez de dormir -, eu fecho os olhos e tento adivinhar-lhes a direção. Bobagem. Sempre tive um senso medíocre de direção, e um ouvido ainda pior. Então, deitada, eu faço a única coisa de que tenho sido capaz:
eu velo
e sinto muito por  eles.
Sinto muito pois, dentre todas as pessoas, chamam por aquela que não sabe ouvi-los. Eu, que mal sei de minha própria voz, e a quem cada palavra soa como dardos, e pesa como aquela última pena sobre o camelo da história.

Antes de entrar no meu quarto, eu tiro os sapatos. Uma vez dentro, eu lavo as mãos. Ali, tudo são baús, invólucros, sobrescritos. Tudo amarrado, etiquetado, catalogado, qual museu. Na porta, os avisos:
não suja
não toca
não assopra
Por precaução:
não respira
Quer saber?
Não entra.
Fica aí. Fora. Que o tempo é um bicho indomável, tu sabes. Arisco. Traiçoeiro. Daí aquele outro aviso, logo ali:
Proibida a entrada de tempos.
Eles fariam estragos por aqui.

Mas eu vou ficando velha, e já não me sobram energias para polir tantos bibelôs e velharias, já não me sobra esmero para insistir quando eles insistem em não ficar novos em folha. Para além disso, não desvendei ainda como plastificar-me a mim própria, e, a cada vez que cruzo esa porta, as casas me reconhecem menos. Devo ser-lhes, hoje, apenas a silhueta de uma sensação, aquele "parece alguém que eu conheço" proferido logo antes de olvidar o estranho que acaba de nos cruzar o caminho. Não nos reconhecemos, eu e eu. E há tanto tempo.
Não sei mais dizer quando nos chamamos pelo  nome pela última vez.

A verdade é que sou eu um museu que me entedia visitar-me. Há muito não vêm itens novos nesses coleções. Aqueles sonhos, paralisados, não vão despertar, e é demais respirar também por eles. Me viessem agora as Parcas, não precisaria eu de três perguntas. Com uma única chance pendendo de seu fio mágico, seria contundente:

Só me diz a direção da saída.

jeudi 24 novembre 2016

Deixa Ela Entrar...


o 1° dia
Ele era alto e esguio quando o vi pela primeira vez, recortado contra a luz que entrava pela porta. Eu era um verme enrolado sobre si próprio atrás de estantes velhas, num canto da parede. Seu primeiro toque me paralisou e apavorou, mas então ele me ergueu e me fez caminhar até a cama.
Eu não adormeci. Eu sumi.

o 32° dia
Eu não sei há quantos dias despertei, ou por quantos eu dormi, mas ele estava aqui, com seus olhos escuros sobre os meus. Ele ainda está aqui. E eu finalmente juntei coragem:
- De onde você surgiu?
- Convidaste-me, não te lembras? Tu me chamas há tempos.
- Você vai embora?
- Depende de ti.
Mas eu apertei seus dedos longos e negros nos meus.
- Não. Fica.
E desapareci outra vez.

o 70° dia
Eu gosto de quando ele me abraça e me põe a cabeça no colo e me cobre os olhos com os seus. Eu não gosto de quando ele se move, e então eu vejo de novo. A luz que aqui entra é cada vez mais branca, mais fria, mais morta. Ela me penetra os olhos como lâminas, e às vezes dói tanto que nem o calor dele me convence a permanecer ali. Mas isso, admito, tem ficado raro.

o 80° dia
O silêncio.
Uma vez me disseram que os melhores amigos são aqueles com quem o silêncio não é estranho. Nós, nós podemos ficar literalmente horas a olhar nada, enrolados nas cobertas. A parede vazia, o vidro no teto, os azulejos manchados. Quando deixamos o ar de fora entrar, é comum ver as mechas negras do seu cabelo escorregando em frente aos meus olhos em nossas miragens silentes. Eu por vezes acho que é a mim que ele olha, e não ao mesmo nada que eu, mas não tenho coragem de me virar para saber.

o 97° dia
A cada vez que isso acontece, de eu jazer de olhos cobertos em seu colo, eu sinto esse desejo de esticá-lo como um lençol e puxar sua pele ao meu redor até me isolar como numa placenta. Eu o diria, no entanto, que não me parisse de novo.
- Ainda não, criança.
É tudo o que me diz.

o 119° dia
Quando estou com ele, o tempo não existe. Nosso dia pode durar sete horas, e nossa noite pode durar muitas dezenas de dias. Tomamos o café da manhã às 2, jantamos às 15, dormimos às 9... bem, eu não diria que ele dorme.
Eu adoro esse nosso mundo particular. Mas ele ainda se recusa a me dissolver.

o 153° dia
No início eu temia fechar os olhos. E se eu sumir de novo? Estarei só ao despertar? Eu não queria que ele fosse apenas uma miragem. Agora eu tenho cada vez menos medo do sono, pois ali somos um. São ainda as lâminas que me atemorizam. O sono não mais.
E ele? Ele é minha única certeza. Meus dias agora têm cor, cheiro, peso. Peso. Até o ar é denso e tangível, me preenchendo quando eu respiro. E eu respiro.

o 164° dia
A luz. Os sons. As cores. Eu não consigo mais mais ter de deixá-lo por esses demônios que me dilaceram os olhos e todo o resto.Despertar dói. Por que ele não vê? É só em seus braços que eu fico em segurança. Quente como uma lareira. E ainda ele insiste.
“Hoje, não, criança.”

o 196° dia
Luz!
Eu abri os olhos...
eu estou em um oceano branco...
em um oceano tão frio...
será que ele
finalmente
me permitiu me
afundar?
não não deve ser seria tudo negro e quente e seguro e ele não deixaria que as luzes me ferissem assim e
As luzes enfraquecem. Ouço algo se movendo. Mas me prenderam.
Escuro.

o 199° dia
Penumbra. Mas o mesmo frio. Ainda não compreendo porque meu corpo está atado e o ar é tão leve. Um vulto... será? Não. Uma mulher. Cabelos vermelhos. Pergunto por ele.
- Quem?
- Ele estava comigo. Vocês com certeza o viram.
- Não. Só havia você quando te trouxemos. E um senhor no andar de baixo, mas creio não ser ele quem busca.

o 202° dia
Outra mulher. Cabelos azuis.
- Ele não veio me ver?
Nada. Insisto.
- Porf...
Ela pára por um átimo.
- Ainda não, criança.
E saiu, acendendo às luzes.

o 203° dia
Desta feita, um homem. Furioso. Rosna a todos os cantos.
- Contenha essas luzes se não o quiser de volta.
Chamo-o.
- Ele não veio?
Ele está me olhando, curioso. Sinto-me uma criança prestes a ouvir algo desagradável enquanto ele se senta ao meu lado.
- Escute. Não há bichos-papões aqui. Está tudo bem e você não precisa de tantas luzes. Velas, lanternas, lâmpadas... basta. Isto tem de parar. Creia-me, o mundo é seguro, andar sem ver seus pés é seguro, sobretudo, não acenda todas as luzes - eu estou começando a me perder em seus olhos verdes - Ele voltará se você continuar como uma fogueira no deserto, e, se ele voltar, você não estará bem.
Abri a boca. Nenhum som está saindo.

o 205° dia
Vejo pelo canto dos olhos a enfermeira de cabelos vermelhos.
- Por que ela acendeu as luzes, a de cabelos azuis, se aquele senhor disse ser mais seguro na penumbra?
- ...
- O qu...?
- Não temos enfermeiras de cabelos azuis.
Ela apagou a luz antes de sair, e eu posso jurar ter visto dois pontos escuros antes que ela o fizesse. Então um sibilo, nos ouvidos, dentro do meu crânio, começa a ressoar.
- Ainda não, criança.

jeudi 27 octobre 2016

Sorori

Imploro, pelo amor todo que te desamei
Tudo o que desvi em teu coração
Tantos limites que a seus sonhos coloquei
Concede-mo, se o puder pedir, Perdão.

Recordo olhos terceiros onde me choraras
E minha nevasca intensa em tua hipotermia
Lábios outros com o amor que tu não m'imploravas
No linho, tuas lágrimas que eu não sabia

Remôo os fundos abismos de cada manhã
O tempo em que, inocente, te vi minha ruína
Tu, tantos infinitos, enquanto eu tão vã
Cega em minha completude e tu ma terminas

Porque não te notei, não te ouvi: tua dor
Porque não enxerguei, não aprendi: meu torpor

31.03.2014

jeudi 13 octobre 2016

Insomnia

Puy du Fou, Maio.2016


No loneliness is loneliness enough
Anymore.
No space is space enough
Anymore.
Suffocation lies no matter where

She is in each one of those faces
Painstakingly visible
Being talked to
Being smiled to
Being looked at
And in them the weight of the world

No sleep is rest enough
No death is peace enough
To this mind that won't stop spinning
And prevents her from walking straight paths
And refuses to sleep - afraid of the waking time

The single aim is not to be
Thus even no life is too much life
for those breaky bones to store

No dream is far enough
No room is safe enough
No life is death enough
Anymore.

vendredi 2 septembre 2016

Ctwch

"Arranca metade do meu corpo, do meu coração, dos meus sonhos.
Tira um pedaço de mim, qualquer coisa que me desfaça.
Me recria, porque eu não suporto mais pertencer a tudo, mas não caber em lugar algum."
(Saramago)



(Klefbecks backe, 06.2016)
Another midnight
Turning again the hourglass
Once more the sand will run
Drowning existence
In grains of past

The rope's on your neck
The wings on your back
And a simple thing
Is just what I ask

Are you jumping or not?

You are falling, anyway
You are breaking, anyway
You are dying, anyway

Time is now to stop setting at dawn
And let the centuries be gone
With their weight
With their age
From your soul
From your face

For the spear of time does not halt
Shedding blood all behind
Which just frosts
It does not warm again
It does not run again
It is nothing but lost

I will not be coming back for you
Other rivers need my flowers too
For more than funerals
And above all
Please, ma'am,
stop snowing over September.

Not even you could seed through such a winter

And the flowers want to bloom.





"Venham enfim as altas alegrias,
As ardentes auroras, as noites calmas,
Venha a paz desejada, as harmonias,
E o resgate do fruto, e a flor das almas.
Que venham, meu amor, porque estes dias
São de morte cansada,
De raiva e agonias
E nada"
(Saramago)

lundi 15 août 2016

La Demoiselle de la Rivière

Bom dia, donzela. Quando foi a última vez que to disseram? Ou suis-je sensée vous dire «bonjour»?
                          
-:-

Aquela moça meio transparente, às vezes reluzia à luz do sol, mais comum era, no entanto, que os olhos a atravessassem. Quando ele chegou, ele olhou direto em seus olhos, e não soube o que é que olhava. Soube apenas que a imagem mais bela que já vira estava quebrada, e que ainda que gritassem seus olhos “impecável”, algo o levava inconscientemente a buscar os buracos pelos cantos daquele demi sourire. Era como perder o equilíbrio. Era como ser empurrado e, num repente, déboussoler. Até aquele então, ele não soubera a sensação de não ver muros nos rostos, e prosseguindo sem cuidado, viu-se face a face com o abismo que ela era.
Ela não queria ser multidão, e estendia seus dedos ao máximo tentando impedir-se de ser corrente. “Voltem-me”. E para cima, “Volte-me”. Franziu a testa com o vento, mas seguiu fluidamente seu curso. “Como tem de ser”, ouviu à distancia. “Tu fais la jeune, c’est vrai. Com esse cintilar puro e simples na face”.
Ah, demoiselle. Alguém já lhe perguntou sua idade? Ou quanta história corre nesses seus veios?
Tempo... Desde o infinito ela alimenta e é alimentada sem dizer palavra – sem receber palavra, mantendo seu vidro duro e gelado invisível. “Como tem de ser” – ecoou. E, portanto, intransponível. “T’est charmante”, ela ouviu enquanto ele tentava alcançar o seu horizonte. Alguma vez alguém tentou chegar-te às profundezas? Tocou seu início e seu fim? Alguma vez foste enxergada além, e não através, do teu espelho?
Os insetos a seguem sem a acompanharem, e toda a fauna e toda a flora bebem nela sem beijá-la. Ela espera que perguntem “qui est tu?”, mas a garganta dele é só um vácuo. Afogados, seus olhos flutuam, ele perdido, ela prendida - escura e sem circulação. Ele não sabe ouvir o segredo que conta o rumorejar do suor dela, suor doce e potável. Suor que é neve. Ela vai necrosá-lo quando se aproximar: “seu fogo azul não me curva, humano.”
Ele vê que a ofendem, mas ela não tem cicatrizes. Ele sente o esgoto naquela garganta, mas ela só sabe existir implicitamente. As folhas caídas não sabem do peso que têm, tampouco a inquietude dele. Ele joga a mochila os ombros e deixa um pé vacilar para trás. Ela se debateu, em sua placidez, e seus dedos não o alcançavam.
Então, enfin. Forçando as correntes, ela se ergue. As mechas vão sendo puxadas, deslizando, enquanto ela se levanta, e no seu rosto se revelam as nascentes do mar, dos mares que banhavam aquela criatura.
Ele secoua la tête e deixou-se hesitar por um momento, numa última esperança de descobrir tudo. Que ce soit une piste. Une toute petite piste. Mas não havia nada. Rien de rien. Só aquela cabeleira densa em que seus dedos queriam brincar.
“Um dia, ma demoiselle.”, ele ergueu a voz por sobre a ponte, “um dia eu ainda vou trançar esses cabelos. Un jour.”.
E a deixou por entre medusas de correntes e água.

-:-
à toute, demoiselle. On se reverra.





Há exatamente um ano, ganhava eu meu quarto com clarabóia. O sol dali não me sufocava. As portas tinham aldrabas. E no rio habitava uma demoiselle, de cabelos verdes, olhos cintilantes e voz chorosa, que me cumprimentava todas as manhãs, e escorria boas noites quando o vento batia frio de madrugada.
Mas as cartas foram reembaralhadas e a ampulheta tornou a virar. Como deve ser.