vendredi 25 mars 2016

TRD 16

Alors! É difícil fragmentar para destacar um único trecho de  uma obra que, segundo o próprio autor, é inteira sobre a morte. Há infinitas passagens que eu poderia escolher. Eu ainda enxergo aquele último páragrafo da página 51, e sei de cor as palavras de Gandalf advertindo Frodo sobre Gollum: "muitos que vivem merecem a morte, e muitos que morrem merecem viver, mas você pode dar-lhes vida?" Foi apenas o primeiro dos muitos trechos que eu ia decorar ao longo de leituras e releituras.
A Morte, traiçoeira, esconde-se num filho para devorar o pai nas suas chamas. E esconde-se numa mulher para fazer tombar um rei. A Morte que se narra em páginas empoeiradas de um livro nas entranhas de antigas cavernas. A Morte que apenas faz ameaçar com uma faca no escuro e com mãos invíveis saindo dos túmulos. Que mata pela espada brandida para proteger, e então a coloca no peito de quem a empunhou. A Morte, o carrasco supremo cujos braços o mais bravo escolhe livremente, já morto. Senhor do Destino, pelo Destino derrotado.
Apesar de tudo, porém, não há espaços ou tempos menos ocupados pela Morte do que estes. Punhais nas costas, espadas no peito, quedas no abismo, chicotes, fogo e gelo. Não. É ao lado de  Húrin que a olhamos nos olhos, vendo-o morrer aos poucos na medida em que o seu mundo rui, e ele só pode aceitar sua impotência, atado à uma cadeira de pedra. É ao lado de Gollum que a olhamos nos olhos, vendo-o existir como um outro que não ele próprio, vulnerável, feito objeto por um Anel feito sujeito.  É ao lado de Éowyn que a olhamos nos olhos, vendo-a privada de tudo o que lhe é caro, sem saber dar as costas ao abismo que a espreita. É ao lado de Frodo que a olhamos nos olhos, vendo-o vestir uma roupa que não lhe cabe, uma vida que já não é sua, inatingível pela paz que ele próprio conquistara.
Mas, acima de tudo, está nos elfos a face da Morte. Na sua eternidade. Na sua imortalidade. A história de cada um deles jamais será a história do que construíram, mas sobretudo a do que ruiu. A Morte se mostra ali na inescapabilidade de uma vida que é só passado, habitando de favor num mundo que já não é seu.
A Morte é a impotência extrema, é ser tudo inalcançável, é não conseguir tocar o que está diante de seus dedos, é não poder deter o tempo, é aquela palavra que nunca se conseguiu dizer. É tê-la dito... E continuar vão.
Ler Tolkien sem sentir uma imensa tristeza pela vida que nos escapa, pelo controle que não temos, pelo tempo que não se apieda de nós, é não entender Tolkien. Eis que sussurra cada página é a vida teu fardo; teu, condenado à solidão de sua própria história, isolado em seu próprio tempo, incompreendido na sua dor como na sua euforia.

Então eis o que escolhi para partager neste ano:

"The dealings of the Ainur have been mostly with the Elves, for Iluvatar made the Eldar more like in nature to the Ainur, though less in might and stature, whereas to Men he gave strange gifts. For it is said that after the departure of the Valar there was silence and for an age Iluvatar sat alone in thought.  Then he spoke, and he said: 'Behold I love the Earth, which shall be a mansion for the Eldar and the Atani! But the Eldar shall be the fairest of all earthly creatures, and they shall have and shall  conceive and bring forth more beauty than all my children; and they shall have the greater bliss in this world. But to the Atani  (which are Men) I will give a new gift.'
Therefore he willed that the hearts of Men should seek beyond the world and should find no rest  therein; but they should have a virtue to shape  their life, amid the powers and chances of the world, m beyond the Music of the Ainur, which is as fate to all things  else; and of their operation everything  should be, in form and deed, completed, and the world fulfilled unto the last and smallest. But  Iluvatar knew that Men, being set amid the turmoils of the powers of the world, would  stray often,  and would not use their gifts in harmony; and he said: 'These too in their  time shall find that all that they do redounds at the end only to the glory of my work.' Yet we of the Eldar  believe that Men are  often a grief to Manwe, who knows most of the mind of Iluvatar. For it seems to us that Men resemble Melkor most of all the Ainur, and yet he has ever feared and hated them, even those that served him.
It is one with this gift of freedom that the children of Men dwell only a short space in the world alive, and are not bound to it, and depart soon whither we know not. Whereas the Eldar remain until  the end of days and their love of the Earth and all the world is more single and poignant, therefore, and as the years lengthen ever more sorrowful. Memory is our burden. For the Eldar die not till the  world dies, unless they are slain or waste in grief (and to both these seeming deaths they are  subject);  neither does age subdue their strength, unless one grow weary of ten thousand  centuries; and dying   they are gathered in the halls of Mandos in Valinor, whence often they return and are reborn among   their children. But the sons of Men die indeed, and leave the World  (it  is  said)-;  wherefore they are called the Guests, or the Strangers. Death is their fate, the gift of Iluvatar, which as Time wears   even the Powers shall envy. But Melkor has cast his shadow upon it, and confounded it with  darkness, and brought forth evil out of good, and fear out of hope. Yet of old the Valar said unto us  that Men shall join in the Second Music of the Ainur, whereas Illuvatar has not revealed what he  purposes for the Elves after the World's end, and Melkor has not discovered it."


(The Silmarillion - sem ref. de página, gomen.)




C'est tout.
Namarië, mellon.

dimanche 3 janvier 2016

Hafnium

" But if of ships I now should sing, what ship would come to me,
           What ship would bear me ever back across so wide a Sea?"

(TOLKIEN, The Lord of The Rings, The Fellowship of the Ring, book II, ch. 8)


Tema o grito das gaivotas, ela disse.
Mas eu, pescadora, me lancei ao mar. Sem atar-me ao mastro ou tapar-me os ouvidos, deixei-as com seu canto, cada vez mais próximas. Também já me haviam lembrado de que à luz se teme mais do que as trevas. Vão. Eu, tão mais forte, ergui logo o rosto pra mirar-lhe os olhos - e os meus foram levados. E quando as águas tornaram-se chão e o vento tornou-se mar, eu, sempre tão ateia, larguei ao seus pés minha oferenda, minha palavra, minha prece. E agora não sou eu quem parte. Eu fico. Sendo a terra quem parte de mim, quem me deixa partida, sem chão, sem rumo.
Aqui jaz meu coração. Aqui jazerá até o dia em que eu voltar, não para buscá-lo, mas para habitar com ele.
Daqui em diante, cada segundo será uma copia ruim, uma memoria borrada, uma sombra dessa vida que existiu fora do tempo e do espaço por meros instantes de infinito, que nunca existiu de verdade, que já nasceu outono e que eu agora cremo no fogo da primeira neve.

O inverno chegou.

" 'Here is the heart of Elvendom on earth,' he said, 'and here my heart dwells ever, unless there be a light beyond the dark roads that we still must tread, (...)"

(TOLKIEN, The Lord of The Rings, The Fellowship of the Ring, book II, ch. 6) 

samedi 26 décembre 2015

Antigoon

Antwerpen, 25.12.2015
Natal é uma mesa e cadeiras vazias
É o peito ocupando as ausências de há tempos
Um fogão que não tem cheiro de condimentos
Um sofá com a capa bordada ainda fria

Natal é a inércia face à melodia
São os olhos brilhando com o esquecimento
São as pedras da rua sendo monumento
A voz muito sumida para a cantoria

A igreja é sem luzes, a praça é escura
Aqui nessa clareira a lua estende os braços
E o silêncio abriga dessa selva dura

Surge um homem sem face, os olhos ficam baços
Natal são seus solfejos que a noite perfuram
Onde o corte do vento é o que há por abraços.

mercredi 14 octobre 2015

Estocolmo

Solidão, Vanni Jung Stahle
Todos os lugares o ameaçavam com a velocidade, e as pessoas que rolavam sem cessar atropelavam a música que trazia. Seu mundo era uma besta voraz e seus bolsos tornavam à casa sempre mais vazios. Vez ou outra se perguntava como é que ao fim de cada dia não havia mais do que poeira em sua mochila, quando a cada manhã, sob a mesma monotonia, ele a estufava de tons e notas para sobreviver mais aquela vida.
Hoje é um dia qualquer e novamente sem pensar lançou seu fardo às costas. Nenhum sinal aberto, nenhuma passagem livre, nenhum corredor vazio, ele apenas segue a fila para uma viagem que não planejou, cortando filas, pulando cercas, ultrapassando pelos vãos pois que tem pressa de tornar ao pó no fim dessoutro dia. Ele... ah! Ele adora ser devorado!

É preciso deixar de ser pedra, tábua rasa de um deus tolo. Migalhas não são coisa que se coma quem almeja as ondas. O perigo de flutuar, é evidente, é estar à mercê das correntes. Não se joga ao mar quem não nem pernas para nadar - ele não consegue conceber. Do casulo quente saem quais borboletas todos aqueles que não sabem ter braços - que não sabem ter asas. É tão inútil ter olhos.

Ele furou outra fila. Do ônibus, da rua, do sinal. Ele chegou antes para poder esperar. Ele é incapaz de apreender o paradoxo de se esmigalhar para edificar. Todas essas morais... Eram apenas letras que as gentes aceitam para não parecerem desentendidas. Ao menos se... Parou. Virou seus sonhos de cabeça para baixo até esvaziar a mochila na calçada. Seus poucos centavos nunca a tocaram, esfarelaram-se na saída.
O que era real?
O tempo era câmera lenta, e ele não parou para vê-lo. Onde estava, pôs-se no chão e cavou-se. Não poderia dizer qual dos sopros levou o órgão vital. Só sabia que não se constrói uma vida com pedaços. No entanto, o que resta de inteiro?
Sem mover-se, fez-se a noite, e não esperou nem desesperou. Renunciou. Razões não há para caminhar, razões não há para voltar. Ele não entende esses que dirigem sem abrir os olhos. Ele não sente mãos guias nas suas costas. Ele duvida de quem sente. Do que funciona. Ele duvida da transitividade do mover. Ele duvida da intransitividade da mesma forma.
Mas hoje ele tem o destino das coisas quando não se as olha. Como seria cair bem no meio do jogo? Ali no escuro ele sente o mar quente que o afogara um dia e o ama com palavras. Uma roda qualquer torceu os sonhos que jaziam na calçada depois que ele se foi, desapossando-se envergonhado de suas migalhas edificadas.
Encarou os ramos ondulantes à sua frente e soube ser o único caminho. Preferiu ficar e se queimar no mar. Razões não há para entrar
na floresta.

jeudi 1 octobre 2015

Set fire to the sky


 É uma lâmpada sangrenta a filtrar toda a nossa fotografia através de seu olhar límpido do bruto e a sobriedade das mortes que lhe prenunciam. Mente frieza e caos enquanto pinta o universo de calor traindo-se a si e à sua fraqueza.
Nunca além do óbvio, jamais além do que supõem, os olhos incham e choram excreções do último pedido, oram pelos pecados que cairão sem perdão e pedem misericórdia pela miséria que escolheram ser. O chão se abre como um Armageddon e é tarde demais para um último fôlego quando o mar deságua fundo em seus pulmões. O seu deus se banha e perfuma e lustra, e não ouve seus clamores. E nem se importa.
Porque o sangue é revigorante, e tão doce.
E onde o olho desse furacão? Onde a boca dessa sentença? Cobriu-se em véu de pudor. Covarde é em seu desprezo! A vista turva difusa nos véus, solução perfeita em que se oculta para o curto alcance de olhos mortais em mares nebulosos e estéreis. Estáticos.
É.
As suas bocas dizem morte, a sua, no entanto, rebate Mãe. Um sopro sorridente, um sorriso encarecido de quem tem o poder de apagar todas as luzes. Não o faz. Se por cima os colapsos A diminuem, curvada, suas raízes leva e os suga com cordões umbilicais.
As suas bocas berram ASSASSINA, e ela, no entanto, chora Matricidas. Em maquiagem rubra, encarnada, explode seu rubor em ondas oceânicas. Do alto impõe-se e cala unanimemente e pulsa. Sistólica e diabolicamente cospe a seiva vital em cada rosto (in)crédulo e se retorce em si como um fruto gigantesco, púbere, com sede de vida. De bebê-la e vomitá-la. Escorre-se viscosa enquanto todos, a seus pés, esbugalham-se e incham, vazando-se de seus próprios poros, e dissolvem-se para uma suposta glória.
Mãe. Dói. Dói florescer e parir tantas Terras e Via Lácteas e átomos diminutamente infinitos. Dói que a morte tome o caule enquanto broto, e se mostra mais que o nascer. Dói que seus olhos tolos, seus medos ingratos, encerrem-nos em cubos de lâminas prateadas. Dói que todo meu sacrifício evanesça.

Bem fizeram os Pais: O universo é vão.

dimanche 6 septembre 2015

The Last Round

"I want you to hit me as hard as you can." [The Fight Club]


David Mack

LET THE FIGHT BEGIN
Depois de bons três quartos de hora, ali estava ele, sobre seus pés, o rosto a poucos centímetros do alvo, observando-o fixamente com olhos que não são os da cara. Ereto, os braços relaxados, as pernas entreabertas. Era provavelmente destro, tendo perna esquerda um tanto significativamente avançada. As pontas dos dedos experimentaram o corpo imóvel, quase como numa carícia, e ele deixou aquela aspereza penetrá-lo como quem medita. Ele poderia estar tocando sua amante, não estivessem seus dedos se fechando frouxamente. Apenas o traía o peito. Apesar dos olhos mortos, seu peito subia e descia profundamente, e até mesmo as pedras pareciam vibrar à sua pulsação.

Por dentro, ele queimava.

Foram três quartos de hora para a reação se pôr finalmente em movimento, e muitos quartos de semana, de mês, de vida, em fogo brando, acumulando, guardando, engolindo a acidez da bile que não sabia digerir coisa alguma daquilo. Uma vida em fogo brando. Odiando.

Seu último piscar de olhos vem em câmera lenta. Como em uma dança, seus pés recuam, seus braços se enrijecem e levemente se vão flexionando, colocando-se à frente do corpo, levando os pulsos à altura do rosto. Gira os dedos, estralando-os, pequenas bombas para as silenciosas margens do lago. A cabeça começa a traçar seu semicírculo, os olhos percorrendo o chão e erguendo-se novamente, sem hesitar, os cotovelos correm para trás em um arco, e os dentes firmemente encaixados agarram seu fôlego.

Que a luta comece.

Sem palavras mágicas, cajados ou braços abertos, o mar plácido se fende e estilhaça antes de poder estremecer. As águas arrastadas como um lençol acertado por um projétil. Carne e couro disparam. Os olhos se apertam quando o corpo não recua nem desacelera. O choque o atinge antes mesmo do contato.

À parte o tremor, não mais do que pele esfolada. Fraco!
Vendo os nós dos dedos firmes e a pele sã, aumenta o ímpeto, libera a força, e agora, mais veloz, não se vêem seus dedos dobrando-se novamente antes de serem parados pela rocha que não os repara. Cega. Surda. Urra.

O cotovelo está de novo recuado, agora mais longe do corpo, o tórax mais curvado, o braço oposto colocado à frente puxa com força e gira o corpo com vigor crescente, furioso. No terceiro choque, o couro rompe. A seiva se derrama numa explosão vermelha e quente. Naquele mar rubro, a tensão se rompe, sobrevém a respiração aliviada, a carne ofega e sua, quase engasgando como um náufrago finalmente liberto. Aberta em rasgos doces e úmidos como uma flor inerte expulsa da semente. Vibra.

Um segundo imóvel, punho e rocha são um, conectados por veias invisíveis, o mesmo sangue a ambos banhando. Os lábios secos dele se curvam, e ele os umedece com a ponta da língua. Dois segundos, e é como a vida entrando nele. Três segundos e sua cabeça gira, ele se sente ébrio.

No quarto, o jogo recomeça.

Os dentes ficaram à mostra sob a testa franzida. A cada golpe, sua pele se escancara mais e seu sangue derrama. A dor faz seus olhos fechados, e ele os abre de volta, assim como força seus braços e mãos a despertarem do entorpecimento e do estremecimento que seu cérebro os impõe. Cada nova mancha escarlate o arma com mais energia e tudo o que ele quer é enterrar-se na rocha com mais força, com mais força, mais força.

Mais força.

Seu torso girando, indo e vindo, os braços em cadência agora perfeita, mesmo nos instantes em que parecem vacilar, prestes a jogarem a toalha contra o corpo que, irredutível, os desafia a continuar na dança.

Macabro. Sádico. Embriagado. Louco. Ele já não pensa. Toda a lenha de sua fúria vira um borrão de sangue. Ele sente algo se trincando - algos. Prossegue, porém, com a violência de um possuído, investindo contra a parede insensível. Seus urros já não se ouvem, ecoando sob o arco da ponte. Nem as vozes que o perturbavam, as risadas, os sussurros, os rostos nos ônibus, os corpos nas ruas, as flores nas igrejas, os abraços ensaiados, os sorrisos de batom, os gritos e os silêncios, as multidões e os desertos, Tudo aquilo que o deixara cego e em chamas cai agora no chão com um silêncio assustado enquanto ele se bate numa batalha desigual.

Os pés balançam e os joelhos vão deslizando para frente, lentamente, como uma folha ao vento. Tocam o chão macio surdamente, e ele deixa sua testa bater-se suavemente contra a rocha pegajosa. As mãos que não sente fazem tremer-lhe o corpo inteiro, e ele não consegue respirar o suficiente. O peito cedendo. A garganta arranhada. A boca engolindo ruidosamente mais ar do que conseguia respirar. Ávida. Desesperada. Agoniada.

Uma onda retorcendo-se dentro dele, ele dobra-se sobre o próprio ventre e vomita todo o seu estômago vazio. Então, como um lembrete de que o pior ainda virá e que o show apenas começa, vêm a dor, a náusea, muita dor, e lágrimas.

O fogo de ódio que emanava de seu corpo dilacera-o agora mais do que nunca. Ele quer vomitar a si mesmo para dissolver-se no lago cristalino que não parara para apreciar seu drama. Aos poucos ele se acomoda na terra em posição fetal. Sem forças para os espasmos dos soluços, lágrimas e baba caem em torrentes mudas. De repente, ele sente frio, mas só o desespero o abraça. Nenhum braço quente, nem uma pele doce e morna ao alcance de seu chamado sem voz para atar seus braços e salvar suas mãos.

Mergulhando na inconsciência enquanto seu corpo se desliga e por fim cede, tenta sussurrar. É tão bom sentir de novo. Mas, na sua dor, seu medo e sua agonia aterrorizantes, não consegue mais do que gemer, e tenta esconder dos olhos a massa disforme e aberta que um dia foram suas mãos. Enquanto ele ainda pode ver o suficiente para se incomodar.

Fight Club 2, Comic Book

jeudi 13 août 2015

Cabides

Eu sei, eu imagino como seja abrir a geladeira às sete da manhã e ver apenas um litro de leite vencido, ver talvez nada. E você vai abrir a gaveta e verá apenas formigas sobre seus farelos, você, que não come há três manhãs.
Eu sei, eu sei que são mais de três. Eu sei que há anos você se retorce de fome, e que nem suas vísceras são mais suas. Que hoje, quando se olha no espelho, você enxerga as ausências dentro de você, os corações que não mais estão.
Eu não tenho sobremesa para você. Não há açúcar que afrouxe sua fome, eu sei. Não vou eufemizar sua agonia. Às vezes eu me pergunto se você sente abortos a cada vez que seu estômago ronca, e em meus sonhos eu te vejo olhando o chão ao redor de seus pés a procura do sangue.
Frankenstein... É bem o inverso, não é? Muitos feitos um. Mas, você... como é viver em pedaços? Eu não sei, eu absolutamente não sei, mas procuro entender quando, da janela do meu prédio, vejo a luz de seu apartamento se acendendo, do outro lado da rua, às 3:47 da manhã, ou quando vejo seu vulto com olhos fixos nas prateleiras de Kinder Ovo do mercado. Você, que não tem nem arroz e feijão. Nem mais aquele miojo das seis da tarde.
Eu sei como é ver Setembro chegando, o inverno acabando, e ainda assim sentir os dedos entorpecidos, e ver o tanque enferrujado e amarelado esquecido no canto da parede, porque não há mais meias sujas de patinação. Sujas ou não, ao menos havia roupas é o que você pensa. Não podemos nem dar-lhe agasalhos, porque você não tem corpo para usá-los.
Outros, tão pouco afortunados, têm a roupa, mas não o tanque. Diacho! De que servem, pois não?! Ter comida sem ter fome. Mas não posso saciá-los, ninguém mais pode. E se pensa nos pássaros do céu, pensa também que nem toda asa é liberdade, que nem todo sorriso é fraterno, e que Babel se assegurou de nada fosse mais igual. Nevermore, disse o corvo.
Luz. Você não a quer. Eu sei. Eu sei como é bater no interruptor em vão, continuar cego, você, que há tanto tempo surdo ainda pensa ouvir os choques dos trovões e o repicar grave e compassado de sinos que avisam agudos sua hora de ser.
Não abram as portas, então, pobres coitados famintos de amor, no máximo os cabides balançarão com a brisa das folhas, mas você continuará de barriga vazia e de corpo frio. E essa dança vai hipnotizá-lo e encher seu peito. E esse vazio vai te trazer saudade do eco que fazia seu coração.
Eu sei, eu sei que pessoas como você perdem tudo sem a chance de voltar atrás, e sei que pessoas como eu ganham tudo sem poder dividi-lo. Mas se eu tivesse apenas um último fôlego, eu diria que fechassem os olhos e pensassem nas roupas, apenas nas roupas. Diria que é melhor trancar as portas, e não pensar mais nos cabides.
Não até que o último grão caia.

lundi 10 août 2015

Corações avulsos

Pintura de ouro
a disfarçar
Todo o vazio
que não quer mostrar
Busca fontes vivas
Para alimentar
A farsa em que não
consegue acreditar

Em mentes alheias
constrói nova imagem
Fugindo do espelho
à clara mensagem
que o faz semelhante
ao ogro selvagem
causando-lhe dor e
intensa vertigem

Eterno cretino
Eterno fingidor
Eternos covardes
Ocultos em amor.


[PS: Eu tentei terminar, G.C, quem sabe um dia dê certo.]

dimanche 19 juillet 2015

Cruzes

[o desjejum, depois de alguns meses afogada]


Inclino a cabeça para trás e, na penumbra, meus olhos delineiam a sombra dos móveis imóveis. Distingo as formas da louça atrás da porta de vidro da estante, das garrafas de vinho pelas prateleiras com o brilho metálico de seus lacres. O vidro texturado da janela me deixa trancada aqui dentro. Só tenho eu mesma em que me perder.
O silêncio é absoluto. E ainda assim, ninguém ouve.
Eu leio então palavras doces, penso nas histórias das bandas de lá e me permito um curvar de lábios. O fardo das palavras novas é trazerem em sua sombra o espectro das passadas. Ou trazê-las com tudo. Nada de novo sob o sol, nada... O passado nunca passa, Srta - é o que ele dizia. Desamasso folhas velhas, jogo-as na máquina, mas a tinta não parece capaz de fazer esse amarelo sair. Existe sabão em pó com tira-tempos?
Por trás do vidro ondulado, as grades dessa janela que me encerra se mostram cruzes e o espelho me pinta impotente. Quisera eu ter quatro mãos: duas para os pregos, duas para o martelo. Quando amanhecer, em cada cruz só se verão pipas e flores. Trevos, para os bem afortunados. É sempre assim, ninguém sabe.
A melodia me embala o corpo, me fecha os olhos e me leva rodopiando por salões invisíveis. O rodar é infinito, o círculo vem como a metáfora que o consciente não vê. Enquanto o mundo girar, liberdade.
Contudo, para.
Aquela saudação em dó1 que fende o chão para abismos interiores, para infernos exteriores e tudo o que não se pode suportar. Você pede que a música não pare, e quando interrompida a fênix volta a gritar com o patético pintado em cada chama com cores desarmônicas. A solidão é tola. A suficiência é deprimente. E não há ninguém as absolve.
O vidro na mesa me intriga e pergunta por que há reflexos por todo lado? Por que tanta dureza impecável, se a única lasca afiada é incapaz de tentação? Calado, devolve-me a xícara. Um mar de chá. Poderia ser qualquer algo, mais letal, mais fatal, mas não. Fecho os olhos de fumaça e engulo tudo de uma vez, fazendo da ira força, revolta contra esse fogo que não me pode queimar. Contra esse corpo que não se sabe acabar.

Porcelana contra vidro, tudo de volta ao lugar. Agora que meu tempo acaba decidi ouvir. Calada. Minhas palavras me queimavam mais do que a água escaldante desse chá, mas deixei-as voltar. Engoli-as também. Não paga a pena, paga? Violar a solidão, negar a suficiência, expor as cruzes. Quebrar o silêncio, se ninguém ouve.

lundi 13 avril 2015

"Debaixo da terra não existem coroas..."

"... - disse o esqueleto - nem de ouro, nem de espinhos."
GALEANO, Eduardo. As Palavras Andantes, p.199.



A morte
Nem dez pessoas iam aos últimos recitais do poeta espanhol Blas de Otero. Mas quando Blas de Otero morreu, muitos milhares de pessoas foram à homenagem fúnebre feita numa arena de touros em Madri. Ele não ficou sabendo.  

[Mal sabia ele...]


 Bem me disseste que a gente é para morrer e só,
pois me desculpa, porque é vão evitar o lamento: vai contigo o cavalo branco derradeiro,
não é justo que teu badalar também obedeça ao horário de verão. Tu te assumiste Ventania, e és agora inalcançável. Tavito te espera para mover no mar as ondas que lhe trarão seu amigo africano, libertará aquelas correntes, e Helena te espera para dissipar as nuvens que a prendem em sonhos.
Aproveita que agora não tens mais teu inimigo à espreita. Contra o meu eu ainda travarei
árduas batalhas. A gente é mesmo um momentinho só, coisa à toa.

Obrigada pelo bem, pelo mal, e por todas as palavras andantes.



Celebração das contradições/l
Como trágica ladainha a memória boba se repete. A memória viva, porém, nasce a cada dia, porque ela vem do que foi e é contra o que foi. Auíheben era o verbo que Hegel preferia, entre todos os verbos do idioma alemão. Auíheben significa, ao mesmo tempo, conservar e anular; e assim presta homenagem à história humana, que morrendo nasce e rompendo cria.
 

A ventania
Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.


O ar e o vento
Pelos caminhos vou, como o burrinho de São Fernando, um pouquinho a pé e outro pouquinho andando. Às vezes me reconheço nos demais. Me reconheço nos que ficarão, nos amigos abrigos, loucos lindos de justiça e bichos voadores da beleza e demais vadios e mal cuidados que andam por aí e que por aí continuarão, como continuarão as estrelas da noite e as ondas do mar. Então, quando me reconheço neles, eu sou ar aprendendo a saber-me continuado no vento.
Acho que foi Vallejo, César Vallejo, que disse que às vezes o vento muda de ar.
Quando eu já não estiver, o vento estará, continuará estando.
 

Textos de Palavras Andantes.
Eduardo Galeano 1940-2015