lundi 6 mai 2013

Distorção Bárbara

Não existe "lugar do outro".
O lugar do outro, por si só, é segregação.
O lugar do outro é o teu lugar.

Não existe o "abrir espaço para o outro".
Abrir espaço para o outro é julgá-lo incapaz.
Abrir espaço para o outro é ser o seu espaço.

Não existe "ensinar o outro a falar".
Ensinar o outro a falar é torná-lo mudo.
Ensinar o outro a falar é aprender a sua fala.

Relações são mãos duplas e o cânone é uma palhaçada.
É um palhaço, no topo do mundo, esperando que se curvem.
É uma piada, de língua estrangeira, esperando que a entendam.

Tu e ele são iguais.
O Mundo é, para vós, um só.
E não pertence.
E não serve.
A nada.
E nesse nada Tu e Eu somos o mesmo.

A civilização é uma invenção dos fracos.
E nesse nada, a civilização é a barbárie.


mercredi 1 mai 2013

O Décimo Primeiro Mandamento


"E trabalha, mata-te a trabalhar, rebenta se for preciso, que assim deixarás boa lembrança no feitor e no patrão."
[SARAMAGO, José. Levantado do Chão, p.74]



O que é que se faz quando a submissão se torna em virtude? Quando o auto-flagelo é ostentado por troféu?
É preciso rever as prioridades... É preciso e logo...


"Tendo nascido para trabalhar, seria uma contradição abusarem do descanso. A melhor máquina é sempre a mais capaz de trabalho contínuo, lubrificada que baste para não emperrar, alimentada sem excesso, e se possível no limite econômico da simples manutenção, mais sobretudo de substituição fácil, se avariada está, velha outra, os depósitos dessa sucata se chamam cemitérios."
[p.327]

mardi 23 avril 2013

Nada de Novo no Front

[ Carta VIII ]


É fascinante, inacreditável. É incrível.
É... é simplesmente inexplicável a forma como alguns livros, por vezes, dizem exatamente o que o leitor precisa, saciando o vazio do mais profundo de seu inconsciente. Este diz, e está trazendo de novo o velho eu que nunca quis que desaparecesse de mim. Ele... ele está me trazendo a esperança de volta. Ele está me trazendo de volta.
Ele me coloca a mão sobre a cabeça, e eu o ouço sussurrando como se me mandasse parar.
Respira, devagar com esse passo. Respira, pára de atropelar as coisas nesse teu levar a vida cegamente. Respira... Larga mão desse deixar para lá.
Pára agora. Não tens de te arrastar assim. Espera um segundo e deixa que cada coisa se acomode em seu lugar. Põe-te, tu, no lugar. Põe tudo no lugar.
E retoma o controle.
E diz bem baixinho: Retorna para ti.
Pára.
Pára.
Respira.
E silencia.
Sabe... é simplesmente inexplicável a forma como algumas vozes, por vezes, continuam nos dizendo o que fazer - mesmo de longe. De tão longe... E elas voltam no tempo, através de cada palavra. E elas me lembram de quem sou. De quem sou de verdade, no interior mais escondido, em minha forma mais despida e pura.
Obrigada.
Obrigada por suas vozes. Obrigada por me ouvirem. Por me lerem e me contarem a minha história, mesmo quando não consigo compreender a sua. Obrigada por, no bolso, na mochila, embaixo do travesseiro ou trancafiados no armário, não saírem de perto de mim.
Obrigada, pois estão sempre lá. Pois sua voz ainda está lá. Por, a cada dia, me ensinar o caminho de volta, e por me ajudar a percorrê-lo.

25/Jan.

*****

"A poesia lírica, no que tem de mais forte, ensina-nos a falar conosco, e não com os outros."
Harold Bloom

Mais um 23 de Abril, Dia Internacional do Livro.
Mais um texto dentre os tantos onde os aponto como minha referência, como meus objetos de memória e de conhecimento. De autoconhecimento. São as histórias dessas memórias, mais do que as que trazem impressas, as que os livros nos contam. São os olhares de nossos próprios olhos os que eles nos revelam. São quem nos mostra que ainda estamos, em algum lugar, inteiros.
Outro foi meu plano para hoje, mas o texto que sobrou - imprevistos à parte - foi este. Mas descobri que ele serve. Descobri que, ele mesmo, também fala comigo, e com qualquer um que reconheça nas palavras - técnicas, filosóficas, fantásticas, espirituais, lógicas, violentas ou românticas - mais do que apenas desenhos de tinta fria.


"But I do believe something very magical can happen when you read a good book."
J.K.Rowling

samedi 20 avril 2013

Sobre As Promessas




Prometer é tentar deter o tempo.
Um passeio, um café, uma visita. Projeções futuras para tentar garantir uma extensão do presente. Ao menos, até ali. Aqueles temerosos pelo vazio de suas mãos buscam, com isso, a certeza de mantê-las cheias. Não querem virar as costas, não querem ver o que se mostra à frente, logo após essa cortina espessa de águas escuras.
E às vezes nem tão espessa.
Porém, cedo ou tarde, é definitivo. É inescapável. Não se pode diminuir o passo ao extremo do zero. Não se pode esticar um instante ao extremo do infinito. Hora ou outra o cordão, não se rompe, se arrebenta, então cai com um baque a percepção de que ele nem sangra - de que essa mania de planos resulta somente na obrigação de se levar um peso morto consigo estrada adiante.
Então, novamente,de uma súbita fraqueza outra promessa nascerá. Porque, novamente, não se quer saber o que poderá substituí-lo.

Humanos...

mardi 2 avril 2013

Sem Saída

Pegar é largar
Partir é ficar
Falar é calar
Seguir é voltar

É desconhecer, o explorar
É fundo cair, se levantar

E se foge para chegar
E se acorda para ninar
E se mata para salvar
Muito mais que por matar

Então clamas: Ai de mim!
Que mais a ganhar teria
Não rumando por aqui
Mas por outra cercania

Que inocente és, pois sim!
Como é vã tua agonia
Perderias tanto assim
Quanto talvez lucrarias

Que cada universo em que entras
De outros te vai afastar
Para cada amor que acolhes
Dezenas vais despedaçar

Para um amigo que enlaças
Outros vários vais abandonar
Para uma dor que obliteras
De outras muitas tens de te lembrar

Que o mundo é mesmo assim
Estende a mão para retirar
Escolher é sempre perder
Ainda que se escolha ganhar

No entanto estás fadado a ele
E jamais poderás escapar
Tua existência ele tem o poder
De à sua vontade arrastar

E teus instantes ele vai roubar
E teus sorrisos ele vai borrar

Sem esperanças, tu vais sufocar
Que tua energia ele sabe esgotar

- Ei, ei... Mundo velho sem porteira...

lundi 25 mars 2013

Lá e De Volta Outra Vez




" 'There lies the woods of Lothlorien!' said Legolas. 'That is the fairest of all the dwellings of my people. There are no trees like the trees of that land. For in the autumn their leaves fall not, but turn to gold. Not till the spring comes and the new green opens do they fall, and then the boughs are laden with yellow flowers; and the floor of the wood is golden, and golden is the roof, and its pillars are of silver, for the bark of the trees is smooth and frey. So still our songs in Mirkwood say. My heart would be glad if I were beneath the leaves of that wood, and it were springtime!' "
(In: The Lord Of The Rings, vol.I, The Fellowship Of The Ring)


Encarar faces pálidas no Pântano dos Mortos, sufocar sob o sol das planícies de Mordor ou encurralar-se sob as nevascas de Caradhras. Vislumbrar o céu espelhado em Kheled-zarâm, mergulhar no encantamento das duas Luzes que banham a Cidade dos Valar, voar sobre o vale que abriga Gondolin, a Branca, ou simplesmente deleitar-se na inocência do verde do Condado. Existe um quê de maestria que só Tolkien possui ao dar vida à sua terra, e basta uma palavra para que o papel exale o odor de sua grama, o sal de seu mar com o cantar de suas águias, e para que o passar das páginas sopre como brisa ou tempestade.
Além disso, sempre se pode visitar as crateras da Lua ou o fundo o Oceano pelos olhos do pequeno Roverandom.

A escolha recai sobre o Explorador.

Tolkien Reading Day

Em um outro tempo, em uma época muito distante, onde elfos, anões e hobbits ainda habitavam a Terra, mais precisamente, em 25 de Março de 3019, finalmente, Sauron, o artífice do Um Anel, caía. No entanto, há muito que os relatos de sua estada neste mundo se perderam, ocultos por névoas de tempo, e já poucos se perguntam o que existiu para além da Era dos Homens. 
Nesta Era, o 25 de Março é o oportuno Dia de Ler Tolkien. 
Instituída pela Tolkien Society, a data é comemorada há exatamente uma década, e é marcada ao redor do mundo - esférico já há algumas eras - das maneiras mais diversas. Para 2013, o tema escolhido é Paisagens. Não que seja tarefa pequena decidir qual o lugar mais agradável, mais surpreendente ou mais fascinante pelo qual homens de uma e outra eras marcaram seus passos. Pudesse, eu escolheria todas.



"Ali ficaram. E, se quisessem, podiam ver a luz das Árvores e caminhas pelas ruas douradas de Valmar e pelas escadas de cristal de Tirion sobre Túna, a colina verde; mas principalmente velejavam em seus barcos velozes nas águas da Baía de Casadelfos, ou andavam junto às ondas na praia, com o cabelo cintilando à luz que vinha do outro lado da colina. Muitas pedras preciosas deram-lhes os noldor: opalas, diamantes e cristais claros, que eles espalharam pelas praias e pelos lagos. Maravilhosas eram as praias de Elendë naquela época. E muitas pérolas eles ganharam por si mesmos do mar; e seus palácios eram de pérolas, e de pérolas eram as mansões de Olwë em Alqualondë, o Porto dos Cisnes, iluminado por muitas lamparinas. Pois aquela era a sua cidade, e o porto de seus barcos; e estes eram feitos na forma de cisnes, com bicos de ouro e  olhos de azeviche. A entrada para aquele porto era um arco de rocha viva esculpida pelo mar; e ela ficava nos limites de Eldamar, ao norte de Calacirya, onde a luz das estrelas era forte e clara."

(In O Silmarillion, cap. V, De Eldamar e dos Príncipes de Eldalië.)

mercredi 13 mars 2013

Arcádia



O céu se está rasgando sobre os pilares de madeira, e os respingos finos produzem um leve ondular das poças sobre o cimento. Por dentro não há dessa terra, terra vermelha que se umedece sem tornar-se em mistura lamacenta, fazendo com que as folhas caídas se lhe mesclem, e também as raízes grossas dos troncos maiores. Mesmo dos mais esguios saem fios delgados e sinuosos, entrando e saindo do chão, assemelhando-se a um enorme sistema circulatório com muitos metros de área ao entremearem-se nos bancos ali dispostos. Nos bancos e mesas frios as gotas caem e saltam alto, até que são, inevitavelmente, bebidas pela terra. Aquela mesma terra, vermelha.
Os corpos das árvores brilham, e mesmo assim mostram-se como secos, jamais curvam-se sob a notória superioridade da chuva, impondo-se orgulhosos em sua óbvia vulnerabilidade. Mais vulneráveis, porém, são os humanos, encurralados, a rodearem o pátio, esse mar de estrondos abalando-os mais do que as paredes sujeitas a um constante receber de trovões. E a medida que o véu se fecha encolhem-se como presos em uma malha que não os envolve, malha que é na verdade seda sobre o horizonte, a ocultá-lo do sol de verão.
E o verão aos poucos faz-se oculto, faz-se outono, diluindo o azul de seu meio-dia nas folhas que principiam a cair e quebram-se como o biscoito seco da tarde de domingo sob os pés dos sem luz. Por ironia, é na ausência destes que ela se acende e passa a iluminar essa água, essa chuva solitária que cai tristemente calma, apesar da imponência com que o céu mente, rugindo.
Ruge também um bicho acuado, cá para dentro. Não, apenas geme. Não, nem mesmo murmura. Respira fundo e só, mescla euforia e melancolia quanto cai solitário. Solitário como a chuva, em sua calma triste. Mas há luz. Há nostalgia e luz. Há calma e solidão. Apenas não ruge e não faz arco-íris, mas existe. E cai solitário, em silêncio, em horizonte sem fim, em abismo sem tom, onde chove para sempre.

06, Março, 2013

lundi 25 février 2013

Escarificação

"[...] por isso em vez de dizer a senhora não me conhece, achei melhor, mesmo sem água, de boca seca e salgada, achei melhor me guardar trancado diante dela, como alguém que não retivesse nada, e na verdade eu não tinha nada pra dizer a ela; e ela queria dizer alguma coisa, [...] mas tudo o que pude ouvir, sem que ela dissesse nada, foram as trincas na louça antiga do seu ventre."
Lavoura Arcaica, pág. 64-5



O dia inteiro foi de afobamento. Um começar sem terminar, um fazer tudo ao mesmo tempo, um não sei aonde ir. No entanto, não foi o meu medo. Dessa vez, foi o deles, que não queriam ver, nem fechar os olhos, que não queriam partir e nem podiam ficar. "... as trincas na louça antiga do seu ventre" - e nunca houve descrição mais precisa.
Papéis. Cartões. Assinaturas. Horários. Camiseta. Caneca. Convite. Festa. Foto. Anda, anda, anda. Até que então a compreensão parte e dá lugar a um rude "você está indo ao lugar errado". Então voltamos. É... incrível, talvez?, que o remorso trazido por mistos de compaixão e pena talvez seja o único a reabastecer a paciência em poços há muito secos. Ao menos por instantes. Até que se dá conta que nada, nada, é justificativa.
Tudo bem, de qualquer forma. "Hoje pode", não é? Uma bala para a criança que for ao médico e se comportar. Eles o fizeram, e ganham então um cartão "vale-tudo". Só por hoje, só por hoje... E parece que sou eu a mãe, a vê-los tomando distância e murmurando comigo mesma:
- Eles vão aprender, eles vão aprender.
Ela me aperta o braço, os dedos muito firmes entre os meus. Ele mal me dirige o olhar, o rosto sempre virado enquanto fala. E fala, e fala. Olhos baixos, olhos altos, olhos distantes. Mas nunca meus. Os verdes cada vez mais límpidos, fazendo-se transparentes como água. Os pretos como um abismo cada vez maior. E nunca intransponível, eu sei tudo o que se passa ali. Aquilo que esconde e que quer se mostrar, que faz questão, de alguma maneira, de se fazer notado.
Abraço. Riso. Conversa. Abraço. Choro. Volta. Rodeio. Retorno. Abraço. Enfim os fios escorregam pela mãos até lhes deixarem as chaves. São as pessoas erradas dizendo adeus. São os lados errados da calçada. Sou eu errada, ficando quando deveria partir.
Apesar de tudo, hoje, sou eu quem acena da porta.Tranco o portão em suas costas, vendo-os de longe. E parece que sou eu a mãe, a vê-los partindo amuados e apaziguando-me a mim mesma:
- Um dia eles vão entender que é preciso. Com o tempo eles aprendem.


25/Fev/2013. 21h03min

jeudi 14 février 2013

Will You Be My Valentine?

Em muitos lugares, o Dia de São Valentim não tem seu significado restrito ao amor romântico, mas é o dia de manifestar qualquer tipo de afeto, como entre amigos ou irmãos.
Coincidência ou não, esse texto foi disponibilizado hoje no blog Outros Cadernos de Saramago (http://caderno.josesaramago.org/160102.html).
Talvez um dia compreendamos ser o Respeito a maior demonstração de amor entre quaisquer criaturas.  "Pode não ser uma utopia."


Problemas de homens
(José Saramago)
"Vejo nas sondagens que a violência contra as mulheres é o assunto número catorze nas preocupações dos espanhóis, apesar de que todos os meses se contem pelos dedos, e desgraçadamente faltam dedos, as mulheres assassinadas por aqueles que crêem ser seus donos. Vejo também que a sociedade, na publicidade institucional e em distintas iniciativas cívicas, assume, é certo que só pouco a pouco, que esta vio- lência é um problema dos homens e que os homens têm de resolver. De Sevilha e da Estremadura espanhola chegaram-nos, há tempos, notícias de um bom exemplo: manifestações de homens contra a violência. Até agora eram somente as mulheres quem saía à praça pública a protestar contra os contínuos maus tratos sofridos às mãos dos maridos e companheiros (companheiros, triste ironia esta), e que, a par de em muitíssimos casos tomarem aspectos de fria e deliberada tortura, não recuam perante o assassínio, o estrangulamento, a punhalada, a degolação, o ácido, o fogo. A violência desde sempre exercida sobre a mulher encontrou no cárcere em que se transformou o lugar de coabitação (neguemo-nos a chamar-lhe lar) o espaço por excelência para a humilhação diária, para o espancamento habitual, para a crueldade psicológica como instrumento de domínio. É o problema das mulheres, diz-se, e isso não é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável cobardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica. Há poucos dias, em Huelva, cumprindo as regras habituais dos mais velhos, vários adolescentes de treze e catorze anos violaram uma rapariga da mesma idade e com uma deficiência psíquica, talvez por pensarem que tinham direito ao crime e à violência. Direito a usar o que consideravam seu. Este novo acto de violência de género, mais os que se produziram neste fim-de-semana, em Madrid uma menina assassinada, em Toledo uma mulher de trinta e três anos morta diante da sua filha de seis, deveriam ter feito sair os homens à rua. Talvez 100 000 homens, só homens, nada mais que homens, manifestando-se nas ruas, enquanto as mulheres, nos passeios, lhes lançariam flores, este poderia ser o sinal de que a sociedade necessita para combater, desde o seu próprio interior e sem demora, esta vergonha insuportável. E para que a violência de género, com resultado de morte ou não, passe a ser uma das primeiras dores e preocupações dos cidadãos. É um sonho, é um dever. Pode não ser uma utopia."

In O Caderno 2, 27 de julho de 2009

mardi 5 février 2013

Mesquinharia I

Sobre a Desgraça Divina

Deveriam poder ouvir suas próprias vozes. Será que se envergonhariam de ter chegado tão baixo em nome de um ponto de vista? Qualquer outra coisa não importa nessa busca incessante por uma maneira de ostentar a razão. Eles nunca se preocuparam realmente, seja qual for o tamanho da tragédia, que percam um braço, que percam um cargo, que percam uma vida. É só mais uma, só mais uma...
Mais uma prova.
"Oras!, pois não é que ele estava certo?" - é o que desejam ler em cada expressão vencida por suas convicções tolas. E os olhares tristes são apenas vestimentas encobrindo seu orgulho. Por que, por dentro, exaltam. Para eles, desventuras nunca serão apenas desventuras. Serão o indício máximo do poder sob o qual fingem se curvar. A necessidade de certezas sobrepõe-se ao próprio sermão de bondade e, ao menos, respeito. Não se enojam da imagem do espelho quando percebem que quebrar os outros lhes é motivo de satisfação? Se sim, pouco demonstram. Por outro lado, talvez o orgulho seja genético. Talvez seja o fruto proibido que circula por suas entranhas humanas desde os primórdios. Talvez...

E, se você puder suportar o cansaço, poderá delinear, não sem antes sentir incomensurável vergonha, a ignorância que se mostra através das dobras em seus rostos. É que, para eles, tudo isso nunca passou de uma competição, e a baixeza de que lançam mão é irrelevante enquanto sentirem-se próximos de possuir a Verdade. Mas que tipo de verdade é essa, que se constroi sobre cadáveres? Eles mesmos não sabem dizer. Talvez sustentem esste grande teatro para persuadirem a si mesmos. Talvez seja precaução, enquanto esperam uma resposta.
Se conseguissem olhar a própria face enquanto falam, se calariam para nunca mais. É medíocre o modo como mal conseguem conter a própria alegria em sua ideia de providência divina. É repugnante o modo como se põem incontrolavelmente felizes. É decadente.
E  não. Não há exceções. E sim. Se uma pedra me caísse sobre a cabeça, tremeriam de orgulho, ainda que tentassem ocultá-lo. Mais uma vez, estariam apenas provando o seu ponto. Quanta náusea me causa esse cheiro que os precede, esses tons de voz falsamente penalizados, essas sobrancelhas tristes negando olhos brilhantes de excitação.
É apenas isso o que eu sei dizer, que tenho nojo. Eu tenho muito nojo.