jeudi 19 mars 2015

Imperialmente sós




"A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte.
Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça.
Diz respeito à consciência - consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor - daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: "Isto é água, isto é água."
É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro."

 O problema não é, nem de longe, sobre toda essa inundação de virtudes inventadas, é mais sobre o quanto nos deixamos esquartejar todos os dias pela cegueira de tudo.
É sobre esse desânimo - no sentido mais profundo da palavra. É sobre sentir o estômago revirar com cada um desses rostos estranhos aos quais olhamos sem nos importar, e que somos obrigados a encarar quando queríamos apenas dizer que não, não nos conhecemos. É sobre sentir todos os dias que o tempo acabou, e correr todos os dias sem saber onde vai alcançá-lo de novo, enquanto há apenas muros à sua frente em todas as direções. Você gostaria que um buraco se abrisse em qualquer lugar, para poder abaixar a cabeça e sumir pelo mais breve dos instantes - mas não há areia para isso.
Todos os dias eu imagino meu eu daqui a dez anos. Ele observa ao redor e vê o avesso de tudo. Ele não escuta os ruídos de casa. E quando ele se olha no espelho, e sem raiva, sem tristeza, sem emoção, pergunta: onde é que viemos parar?

"Now that you've come so far, where do you go from here?
[...]
Please hold my trembling hands before I go insane all again"
-Angra, Window to Nowhere


Discurso de paraninfo de David Foster Wallace, em 2005.

 Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

- Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

- Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude - mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

[...]

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica - pelo menos no meu caso - é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

[...]

Lembrem o velho clichê: "A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível." Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão - a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um "boa noite, volte sempre" numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

[...]

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. [...]

[...]

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência - consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor - daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: "Isto é água, isto é água."

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.

dimanche 1 mars 2015

Willkommen




 EMERGE - Marjolein Caljouw. 2014.


As portas há tanto tempo
mantidas trancadas
finalmente correm
Que não se diga no antigo aposento
estarem completadas
as folhas em branco
Talvez seja o peso do relento
as paredes tomadas
dos medos que cospem
A fazer dele um porto cinzento
A que almas fatigadas
Vão aos solavancos.

A casa vem com
Sete estrelas
Juras de amizade
Fogo na lareira
E abrem-se as portas com
Muitas janelas
Vozes de saudade –
Cena agoureira
Mas vêm os instantes com
Um toque singelo
Um sopro, uma inverdade
E a pergunta primeira
Revelando as cáries de
Um muro podre
Um coração incerto
Uma adaga certeira

As decisões ludibriam
E faz opaco o medo
As bestas que resguardam
E as certezas desviam
Pintam de segredo
Os que as amedrontaram
Vem, porém, cedo ou tarde
Rastros fundos e negros
Punhais que esburacam
A nova dura capa
Fachada de enredos
Que não se encontraram

Vão será todo em branco
Quando não houver palavras

Que não se diga que
Uma folha
Jamais foi prova de livro
Que não se creia que
uma pétala
jamais foi foto do arvoredo
Que não se veja em
Um telhado
A certeza de um abrigo
Que não se engane com
abraços
Que não fazem, sós, um amigo

As portas há tanto tempo
Mantidas abertas
Finalmente morrem
Que não se diga no novo aposento
Estarem recobertas
As almas sem manto
Talvez seja o peso desse tempo
As linhas incertas
Que os pés interrompem
A fazer o perdido alento
E a vista cansada
Esgotarem o pranto

Que não se diga que há
Felicidade
Que não se espere mais
sentir saudade
Que não se creia nunca
Na bondade
Que não se aposte
Em possibilidades
Que não há nada
Senão malas rotas
Para desfazer
E algumas páginas
A perecer.

samedi 14 février 2015

Meia-noite



Eu me lembro de gritar no escuro - baixinho.
Eu me lembro de cobrir a cabeça antes de a luz se apagar.
Eu me lembro de pular na cama, de deslizar no chão sujando as meias coloridas, da luz laranja da lanterna no teto cor-de-rosa de nossos palácios e de nossas velhas grutas.
Nós esticávamos os braços para saber em quem cabia mais amor, e contávamos os abraços em milésimos, para nunca estar atrás, e no canto da mesa da cozinha ficava aquele caracol em seu abrigo de algodão verde e macio, muito antes de sua hora de levantar. Pela noite, alguém me puxa no sono: está acordada? Eu não era grande o bastante para me importar com as horas.
Daquela vez, insone e medrosa, crescemos um bolo, e enquanto a casa dormia nossas quatro mãos folheavam livros amarelos com receitas de passado. Meia noite já passara - há muito extrapolado o meu limite real - quando o cheiro doce perfumou o sereno.
De outra vez, o bolo a seis mãos literalmente regado a guaraná foi nossa festa particular de boas-vindas.
Então partimos.

Houve um tempo em que eu via sombras através do vidro da porta e disparava a correr até cruzar a garagem. Amanheceu e eu já não me dependurava, meus pés roçavam o chão de qualquer modo. Os eu te amo's passaram a Bom Dia's, e estes a Boa Noite's, quando virávamos abóbora em troca de um beijo, sem saber que tantas são as vezes que se vira abóbora quantas são aquelas em que se apodrece. O último eu te amo caiu com a décima segunda badalada.
Fomos time e adversário, trancamo-nos para fora e expulsamo-nos de casa, e também nos enlaçamos dentro. A hierarquia esteve sempre clara a estabelecer as fronteiras dos mundos que alimentou, e era infalível em saber em qual deles as coisas precisavam ser ditas para serem entendidas.
Todos os risos acabaram em choro, como deve ser. E todos os dias juramos inimizade eterna. Se um dia as mãos se davam para caminhar, como em soldas invisíveis, cada vez mais abandonamo-nos nos cruzamentos do outro lado do morro. Atravessávamos a rua e então estávamos sós: muito lentos, muito velozes. Para onde foi a sincronia?
Fomos, no entanto, muito discretos, não desandamos a correr pela rua, não nos prostramos a esperar no meio-fio. As vitrines eram constantes bloqueando nossa visão - nosso engajamento compartilhado quebrado. Tão avidamente lustradas, e ainda assim tão opacas.

Será que tudo para na sede? No vazio? Os Boa Noite's acabaram quando as noites se encheram, restou apenas o ruído da rua quando as canções de ninar acabaram. Quando a menina começou a fazer as próprias tranças, viu fios brancos. Quando o menino soube ir à escola sozinho, receitas médicas inundaram suas prateleiras e afogaram todos os carros. Quando finalmente todos tinham voz, não havia o que ser dito.
Como pode haver convenções de afeto? O medo será tamanho que não permite o amor além da insegurança, cercado de maldições e luas cheias?
O bolo doce daquela meia-noite agora tem moscas e murcha a olhos vistos. Perdemo-nos com a inocência. Nunca soubemos amar de graça. Nunca aprendemos a sorrir a despeito da guerra. Abóboras encantadas, apodrecemos em nossas vestes de gala toda meia-noite. "De cada vez é para sempre", diz Graograman.

vendredi 23 janvier 2015

Mépris, chéri, mépris.

Run
Hide
Don't hesitate
The way you try to live your life
The way you build your fate
They're nothing but a stupid try
To avoid the universe

Drawn
Fly
Don't try to change
Ignoring all the world outside
You wreck your absent soul
You should seek nothing but to die
No mercy you deserve

Hurt
Cry
Nobody cares
You're fooly high but look behind
In haughty cowardness
I cut your skin to no inside
I will bleed you to your death.

samedi 10 janvier 2015

vendredi 19 décembre 2014

La Belle et la Bête


"— E você gosta daqui?
Ela olhou para ele e balançou a cabeça
Eu me sinto uma hulder.
Ele já ouvira aquela palavra na Noruega.
— Elas não são uma espécie de troll?
— Não. São seres das montanhas, como os trolls, mas vêm da floresta, e são muito bonitas. Como eu. — Ela sorriu ao dizê-lo, como se soubesse que era pálida, tristonha magra demais para ser bonita. — Elas se apaixonam fazendeiros.
— Por quê?
— Sei lá. Mas se apaixonam. Às vezes o fazendeiro percebe que está falando com uma mulher hulder, porque ela tem um rabo de vaca nas costas, ou, pior ainda, às vezes não tem nada atrás, é oca, vazia, como uma concha. O fazendeiro faz uma prece ou sai correndo, volta pra sua mãe ou pra sua fazenda. Mas às vezes o fazendeiro não foge. Às vezes ele joga um punhal por cima do ombro dela, ou simplesmente sorri, e se casa com a mulher hulder. Aí o rabo dela cai. Mesmo assim, ela é mais forte que qualquer mulher humana. E sente falta de seu lar nas florestas e nas montanhas. Nunca será feliz de verdade. Nunca será humana.
— E depois, o que acontece com ela? — perguntou Shadow. — Ela envelhece e morre com seu fazendeiro?
Ela fatiara a maçã até o caroço. Então, com um movimento do pulso, atirou o caroço num arco, de cima da encosta."





GAIMAN, Neil. Coisas Frágeis.

lundi 1 décembre 2014

Tyrius



Ele tinha pés pequenos, o nariz achatado , o corpo robusto, e trazia um largo chapéu. Nas mãozinhas, as únicas e minúsculas flores que a neve não cobria, azuis e vermelhas, e brincava com o vento que o jogava de um lado para o outro entre as pedras, apenas preocupado em não perder as flores da Donzela do Rio. Mas daquela vez ele caiu. O sol cedeu às sombras e o vento se recolheu. A água silenciou. E ele não viu mais nada.

 
PRÓLOGO

Um enorme dragão branco pairava no céu, flutuando mais silenciosamente do que o vento, que não soava mais que um sopro naquilo que era como um balão de papel navegando nas gêneses do sol nascente. Seu calor brilhava translúcido, e a ela ali mergulhava como em alvos lençóis de algodão. 
O corpo quente da terra contemplava com seus olhos cegos e respirava a suspensão do tempo, em que o céu não girava sobre si. Sem gravidades. Sem acelerações. Sem vida. Sem morte. E ansiava.
Até que sente roçarem os primeiros fios, percebe, despertando, que as engrenagens voltam, retomando seu adagio agudo. Então, abre os olhos esperando ver cometas e fogo. Não os há.

A barriga do céu fora atingida e do buraco da flecha corre seu sangue anil. Espalhavam-se dali braços desesperadas e garras que o destruíam para dentro.  Rasgado e dilacerado, o couro se esgarça e surra, perdendo as bordas como se roídas por traças invisíveis. Mas ele não sabe descer, e só consegue exibir os trapos que não pode salvar.
Seu barro árido seco duro pedia ao céu que chorasse as lágrimas que nela secaram e ela se abriu para o sal de suas grandes gotas quentes. Que nunca viriam. Dilataram-se poros e veios vindos desde o seu âmago enquanto ela chamava as flores e gritava que era passado o tempo de florescer.
Os trapos dissipados parecem incandescer e finalmente caem, sua queda dada em novelos de pequenas nuvens é um fino cristal e a chama do dragão extingue-se em neve, banha a terra de botões de gelo, queima até a necrose sua pétala rosada. Dela, que ainda não sabe chorar. E ainda o céu não chora por ela.
Só resta a água ácida desse corpo sem vida, um dilúvio que afoga sem saciar, que consome sem consolar. E a terra, faminta, permanecia infértil, apenas durando, enquanto o céu chovia despedaçado a morte azul de um dragão branco.


Nota: Créditos ao Dono do Vento http://sempreler.tumblr.com/archive, sem cujo sonho eu jamais teria tido a ideia para esse texto. E, claro, ao duende Tyrius, pelas flores. (:

jeudi 27 novembre 2014

Pour effacer l'absence

Fabiano Oefner, Iridescent


Ela chorava bolhas de sabão
E de seus olhos escorria
Melancolia furta-cor.

samedi 1 novembre 2014

Fátuo

Uma gota de sol afundou em um mar de pó e fez-se nada.

Somewhere around Unicamp, 06.2013


Ontem houve uma gota de luz
Hoje ouvem a chuva funérea
Amanhã, da estrela, enfim, a cruz
Traçados cinzas sobre a tumba dela
Porá a cabo outra vida fátua?

Um outro sopro sobre qualquer vela.

mercredi 1 octobre 2014

Scorpio

E eu, única Virgem nesse ninho de Escorpiões, não me apercebi do veneno que me inoculáveis.
E vossa Loucura peçonhenta é o que me sobra.



Raposas.
Alucinações.
Digo-vos que sejam.