lundi 10 janvier 2011

Inexistência

Então você olha para trás e vê que nada construiu, nem uma lembrança. Você percebe que, em algum tempo, ninguém pensará em você, ninguém rirá relembrando momentos ou chorará de saudades.

   Você não criou laços, não despertou sentimentos. O espaço em que você esteve não será um vazio quando você se for. Você não passou de uma sombra. Não houve quem se importasse de verdade. Não houve quem sentisse algo por você. Não houve que sentisse você.
Conforme-se: Você nunca existiu.
Para ninguém.

"Não remexa o amargor da taça que preparei para mim mesmo.
Já não o provei por muitas noites em minha boca,
pressentindo que um sabor ainda pior estava no fundo?"
Denethor - O Senhor Dos Anéis (vol.único) pág 860

vendredi 24 décembre 2010

Palavras


"Achava que o essencial era perder o medo de vocábulos e frases que eram como façanhudos cães de guarda dos fatos, das coisas e das idéias. (...) Porque o que importava era quebrar o encanto das palavras, enfrentas esses monstros de nossa própria invenção, tratar de debilitá-los, tornando-os inofensivos. Uma vez que transposto o muro que a linguagem ergue entre nós e as coisas que representam, podemos abraçar, aceitar a vida, sem temor nem repugnância."
Dr. Carbone - pág 136 - O Arquipélago - O TEMPO E O VENTO - Érico Veríssimo

      Por vezes é possível perceber que algumas coisas parecem perder o sentido se colocadas em palavras - se ditas nua e cruamente. As coisas belas perdem a magia, pois as palavras limitam tudo o que elas podem significar, toda a sua grandeza. E as coisas ruins... Bem, ficam sem importância. Os maiores medos, se ditos em voz alta, são tornados insensatos e ilógicos.
           Mas as pessoas têm medo das palavras.
         A verdade, a verdade pura, pode muitas vezes soar grosseira e machucar. E então todas as pessoas passam a ter medo de se revelar, de se abrir, porque mesmo aquilo que elas sempre souberam pode parecer cruel e feri-las se ousarem dizê-lo. Por isso simplesmente ignoram, por isso precisam sempre de alguém para lhes estapear e gritar a elas o que precisam admitir.
        O ser humano é covarde. Não com os outros: consigo mesmo. O ser humano tem receio de mostrar para si mesmo o que é.
   .Quando não se define seu sonho, não é preciso correr atrás.
   .Quando não se define o desafio, não é preciso arriscar.
   .Quando não se define a vontade, não é preciso tentar.
   .Quando não se define o medo, não é preciso enfrentá-lo.

         Mas existem as palavras, para nos tirarem do escuro e nos levarem a um rumo certo. Para nos mostrarem o que deve ser feito. Para excluir toda essa paixão que colocamos nas coisas, e nos deixar enfrentá-las sem exageros, pelo que elas realmente são.

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(Falei besteira... mas é isso mesmo... Deixemos para lá esse temor das palavras. Deixemos para lá esse temor da verdade.)

lundi 6 décembre 2010

Contraste

Ela estava sentada a um canto da parede, e estremecia com a brisa gelada; o cheiro da chuva lhe agradava e aquele ruído a confortava. O som das gotas maiores caindo do telhado em pequenas poças a fazia vigilante, acentuando a sensação constante de passos e uma presença oculta. Fechou o livro que tinha nas mãos, tirou um pequeno papel do bolso e começou a dobrá-lo aleatoriamente, apenas para manter suas mãos ocupadas enquanto observava ao redor com o canto dos olhos, pois que sua mente já não se concentrava na leitura.
Por vezes parava, certa de que ouvira algo e de que, desta vez, havia alguém chegando. Tomava coragem e levantava a cabeça, mas novamente era apenas impressão sua. Então voltava à sua calma habitual. Ela se acostumara àquele lugar, onde jamais a incomodavam, mas hoje ela aproveitaria cada segundo e não perderia a queda de uma gota sequer. A chuva era um espetáculo diferente para fazê-la sair da rotina e levantar os olhos das páginas mortas que sempre carregava consigo e dirigí-los a algo vivo e imprevisível. E fazer isto transmitia a ela um sentimento de paz que não podia explicar. Só sabia que gostava daquilo, pois levava-a a pensar em outras coisas que não a sua solidão diária.
De novo ouviu ruídos, agora mais fortes, teve certeza de que havia algo a rondá-la, alguém apareceria desta vez. Hesitou um pouco, o olhar voltado para baixo, com medo do que poderia ser e... E riu de si mesma com um suspiro. Tolinha, não há ninguém para aparecer! Apesar de seus temores e paranóias, ela sabia que não havia vivalma ali, eram apenas temores e paranóias...
Levantou-se, voltou o papel no bolso e acomodou o livro num canto protegido da chuva. Tirou o tênis, apesar do frio, e foi caminhar. A água gelada era desconfortável no começo, mas ela começou a se sentir livre, livre de si mesma. Esticou os braços e fechou os olhos, quando sentiu que não poderia se sentir melhor abriu-os de novo. Só teve tempo para divisar algo pontiagudo vindo em sua direção: rápido demais para ela se esquivar; devagar o bastante para que pudesse percebê-lo.
O sangue espirrou pela sua face, assustando-a. Seu peito ardeu e ela lançou um olhar angustiado para trás, tentando voltar, mas já não podia ver com nitidez. Ela, que nunca se acreditara feliz até então... Ela, que nunca se sentiria livre de novo. De que adiantou tanta exaltação senão para agravar todo o frio e o vazio que vieram depois? De que servia a alegria, se não para mais tarde a torturar com sua lembrança e fazê-la se sentir no profundo de um abismo ainda maior?
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Doce alegria... assassina da esperança.
- For you, Flávia. ;)
http://rsflavia.blogspot.com

lundi 15 novembre 2010

Pain

"Why do we sit around and break each others hearts tonight? (...)" ♪


Por que é tão difícil encarar a verdade?
Foi quando estiquei as mãos para alcançar alguém - com vontade e sinceridade - é que percebi que já havia me metido num caminho sem volta. Não fui feita para as pessoas, não foi assim que me forcei a ser. Não sou assim. Hoje em dia já nem lamento. Algo em mim está quebrado e sei que não vai voltar. De certa forma... já não luto contra isso.
Digo que não lamento, mas não nego que me arrependo - talvez não seja essa a palavra -, me atormento profundamente quando reflito sobre isso. Arrependo-me de não ter notado antes como isso iria me ferir hoje. Quantas vezes o orgulho nos cega e nos faz acreditar que devemos resistir ainda a toda influência de outros? Como agimos tolamente...
Penso em como seria se tivesse percebido antes. Mas, bem... ninguém sabe o que tera acontecido, tampouco devemos pensar nisso. No entanto, nunca me perdoaria se houvesse dado ouvidos à terceiros quando era tempo; nunca me perdoaria por não ter resistido em ser eu mesma e seguir minhas próprias regras.
É tudo tão difícil de compreender... de explicar. No fundo, nós só passamos a ouvir os outros quando suas idéias começam a se expandir, num eco, dentro de nós. Só passamos a ouvi-los quando, em nossa cabeça, é com a nossa voz que suas idéias ecoam.

"Can it be saved 'till we apart?"

lundi 25 octobre 2010

Criatura de Homens*


Analisando a essência humana, o ego é soberano. Pouco se comove com o mal ocorrido a outrem, ou cuja ocorrência é talvez pouco provável. A verdade é egocêntrica: cada um por si e todos por nada. A população não desenvolveu seu caráter socialmente, é o instinto que ainda vigora. Pouco interessa o ladrão, desde que o poder e a privacidade de cada um permaneçam intocados.

O homem não se trata como indivíduo pensante, ainda espera a aceitação do absurdo em suas atitudes, alegando ser esta a sua natureza. Assim, recorremos ao nosso lado animal para justificar nossas misérias. E o Governo é o retrato perfeito disso: uma instituição de homens onde se demonstra toda a falta de escrúpulos humana. Todo esse processo tem início no momento do voto. As escolhas mais importantes são feitas baseando-se em interesses e vantagens próprios e não na comunidade. Esse é o pensamento lógico e instintivo, mas se torna cruel pelo conhecimento de que sua escolha resultará em prejuízo para os outros. Dessa forma, a base política da sociedade rui.
Ao desmoronar do prédio todo, dedos são apontados em todas as direções, mesmo que, intimamente, saiba-se que apontam para um espelho. Mas as criações são reflexos de seus criadores, e o povo se nega a enxergar essa verdade. Julgam-se inocentes e fazem-se de ingênuos, recusando-se a agir ou a tomar decisões. Decidem que a culpa é de todos, e logo não devem colaborar. Cruzam os braços e esperam.
Dessa forma, a solução do problemna não é enjaular os culpados, pois culpados são todos. Se as criações são reflexos de seus criadores, cabe à nós preparar melhor esses criadores, e não caluniar as criações, que são apenas o que foram criadas para ser.

*(Renomeado. Antes: FRANKENSTEIN)

mercredi 13 octobre 2010

Desilusão

Por muito tempo você esteve distante dessa porta, certo de que nada ameaçaria aquilo que ela guardava. Por muito tempo você adiou suas visitas àquele comodozinho por coisas não tão importantes, e repetia a si mesmo que seu tesouro estaria seguro. Mas agora um tremor te percorre o corpo. Algo atrás dessa porta está errado e não pode mais esperar. Algo que talvez já tenha esperado demais.
Você pode ouvir as batidas do seu coração acelerarem ao toque gelado da maçaneta. Com um ruído a porta se abre, você inspira o conhecido aroma doce e por um momento acredita que nada mudou, foi tudo paranóia sua. O grande globo de vidro reluzente está bem no centro, sobre um pedestal esculpido em gesso. Um feixe de luz desce diretamente do teto sobre ele. O resto do cômodo, escuro e vazio, como sempre esteve.
E então você vê. A luz não emite os reflexos confusos, e não há aqueles brilhos coloridos dentro do vidro. Para onde foram? Mas q..? Você chega perto e repara na fina rachadura que riscava o vidro. Dentro deste: nem uma gota. Algo torce seu estômago e um nó sobe para a sua garganta que não te deixa respirar. Você não entende como isso pôde acontecer. Seu olhar desce pela linha fina e úmida no pedestal até alcançar o chão. Seco. Não!! Como? Sinto muito, pelo visto já faz um tempo.
Mas uma luzinha se acende em você, que acaba de reparar nas pequenas poças aqui e ali. Há apenas um modo de recuperar o pouco que resta. Você corre para fora e volta com panos que espalha pelo chão, cobrindo cada canto, para que alguma coisa se salve. Quando acaba, censura-se por ter esquecido os baldes, e sai correndo, novamente.
Enquanto respira fundo e tenta se concentrar, pode sentir seu sangue pulsando. Você tenta descobrir algum otimismo ou esperança no meio do seu desespero. É hora de ver o que sobrou, mas você hesita. Você não pode viver sem isso. Não há um sentido em viver se você perdê-lo...
Quando o trabalho acabou, você mergulhou o rosto nas mãos e chorou. Chorou como um bebê. Intensa e inconsolavelmente.
Porque você torceu os panos, mas estavam todos secos. Completamente secos.
Porque nem uma gota restou.

vendredi 1 octobre 2010

Tempo


Recordar, do latim RE - CORDIS: Voltar a passar pelo coração.

     A cada dia que passa envelhecemos mais. A cada minuto algo já ficou para trás. Cada suspiro nos deixa mais próximos de um fim que não temos idéia de quando virá. Mas não era sobre isso que eu queria falar...
     O que realmente fere, é termos que perder de vista aquilo que somos, para perceber que devíamos ter continuado ali. É só quando o tempo há muito nos afastou de um momento que percebemos o quanto ele era especial. E é sobre isso que escrevo hoje.
     Há dez anos eu nem me passaria pela cabeça o que digo agora; daqui a outros dez, vou perceber como tudo isso é desnecessário e incompleto. Mas ainda assim o direi. Apesar de clichê, nada mais correto que aquela frase que ouvíamos dos adultos quando brigávamos com um "coleguinha" ou quando nos achávamos super-heróis por desenharmos uma casinha com montanhas ao fundo e um pôr-do-sol: Que época boa! Vocês vão sentir falta disso... E a gente sente. Mas não no sentido de querer voltar, a gente lembra, a gente pensa, e fica sonhando acordado, será que naquela época eu esperava me tornar o que sou hoje?
       Com certeza não.
      Naquela época o futuro não existia. Ia chegar quando fosse a hora dele... Na verdade, o futuro ainda não existe. E talvez fosse melhor pararmos de pensar nele, como sabiamente fazíamos há dez anos.

     Ah.. a inocência! Aquela ingenuidade era impagável! A alegria de ganhar uma boneca nova, a tristeza de perder um lápis de cor. Aquele brilho nos olhos que nos denunciava os pensamentos, por mais que fingíssemos não haver nada nos incomodando. Mas o melhor de tudo eram os laços... Na época em que nem nos importávamos com os novos modelos de celulares e nem sonhávamos com tantas redes sociais, na época em que não havia
eu te amo's em todos os lugares e em que não líamos frases bonitas... Naquela época inesquecível, as palavras eram desnecessárias; nós estávamos todos juntos e era isso o que importava. O eu te amo estava em cada gesto, em cada briga, em cada roda, em cada lágrima.
         O eu te amo não existia. E nem precisava.
         A gente sentia. E só.
      Há dez anos, a gente não pensava no fim de nada. Por que nos diziam tanto para aproveitar? Há dez anos nós éramos imortais. Eternas crianças. Não havia razão para termos medo de um dia ir embora, a gente estaria junto todos os dias, não é verdade? Não era... Mas e daí?
         Há dez anos, não existia tempo. E é por isso que era tão lindo...

......................
No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
Que o vento não conseguiu levar:
Um estribilho antigo
Um carinho no momento preciso
O folhear de um livro de poemas
O cheiro que tinha um dia o próprio vento...
Mário Quintana

Deixo aqui uma homenagem para uma pessoa mais que especial. Para essa prima-irmã de todos os dias, de todas as épocas. Para aquela que há muito me deixou uma cicatriz no rosto e que me fez chorar (e muito!). Para aquela que hoje só me faz rir, só me traz alegrias e momentos bons... E me mostra que por pior que o mundo seja, sempre haverá uma canção... tocando em algum lugar.
Para a minha prima Mariana, deixo um super Feliz Aniversário. E desejo que o tempo nunca apague a sua alegria e que não torne seu coração amargo. Desejo que o tempo não te transforme em sua essência, e que você seja sempre assim, exatamente como é!
(promete que não achou dramático? rs) Eu te amo, de verdade.

samedi 18 septembre 2010

Derrotado...

TUM!
Vai começar de novo. Vem-lhe aquela pancada, mais forte que das outras vezes. Seu coração parece querer arrombar seu peito. Mas ela sabe, no fundo ela sabe - e respira aliviada por isso - que esta foi a primeira da última série delas. Ela sabe que tudo acabará ali.
O lugar está cheio, o que significa que já começou, e que também aqui não falta muito para acabar. O Sol é um globo em chamas. Pequeno. Distante. Terrivelmente belo ele tinge o horizonte com seu tom carmesin. É incrível como consegue dar ao céu tons tão diferentes. Acima vê-se um azul límpido, mas ao abaixar o olhar, há bem à frente montanhas pálidas e um céu esbranquiçado. E perto do Sol, um brilho cor de sangue. Aquelas... TUM!
TUM! TUM! De novo. Ela só teme que ainda demore muito. A dor é profunda e leva-lhe ao desespero. Ela não tem medo, desde que acabe logo. Pela janela, vê um vulto negro sobre uma montanha menos distante. É só um menino soltando pipa, caminhando ao Sol...
O Sol, como notaram, está bem mais baixo. As montanhas mais próximas dele parecem estar em chamas. As labaredas avançam lentamente sobre a Terra. As pessoas ao redor ficam em silêncio e assistem hipnotizadas ao espetáculo à frente. Sabem que algo está para acontecer.
TUM! TUM! Ela aperta a mão contra o peito como se tentasse arrancá-lo. Não entende porque ainda não perdeu a consciência como sempre acontece. Será que a farão ver tudo, sentir a última lufada de ar deixar seus pulmões? Ela arfa violentamente e seu rosto molhado se contrai. A dor é tanta que já não chora, apesar de ainda ter o gosto salgado das últimas lágrimas nos lábios. Não que ela não goste... TUM!
As montanhas reagem, não se deixarão devorar pelo Sol. Já se percebem falhas no contorno do grande astro. O céu acima está enegrecendo, e se pode ver a Lua. O Sol brilha, torna-se mais vermelho, mas todos sabem que ele está perdido. "Assim como eu", pensa ela, "ele luta sua última batalha".
TUM! Ela não pode suportar mais. Deitada em seus lençóis revirados solta um urro que assusta a todos por perto. Um urro vindo do mais profundo de seu ser, libertando toda a sua dor.
Os olhos ansiosos brilham em lágrimas. As mãos rígidas. O grande inimigo está sendo derrotado.
TUM! Alguns segundos. TUM! O fim é evidente. TUM!
TUM! A última batida virá. Ela está inerte na cama. Esperando. Seus olhos fixam-se no último raio de sol vindo pela janela. Ela pisca para a primeira estrela que surge no céu. Seu tormento finda. A última batida vem. TUM!
Então todos sorriem e batem palmas. Há lágrimas em todas as faces. A última chama se apaga e deixa o céu.
Ela está em paz.

jeudi 2 septembre 2010

Inevitável


♪ "And here I am now, taking the pieces of light... In my soul so dark, silent screams of pain... " ♫

         Não adianta negar, você sempre diz que não se importa, mas é inevitável. Você sempre espera algo. E à meia noite o seu coração bate mais forte. O que vai acontecer? É claro que você sabe que será o mesmo de sempre, mas é involuntário... Então você acorda diferente, olha para as pessoas de modo diferente - e tem a estúpida impressão de que os olhos delas estão diferentes também. Você morde os lábios, e caminha olhando para os lados, pensando em quem virá primeiro. Depois de um tempo você vê que é apenas mais um dia como qualquer outro, e que poucos notarão como você está mais leve hoje. Mas há sempre aquele alguém que dá o grito, e logo algumas vozes se levantam. Sem entusiasmo algum. Os abraços mal te tocam, os sorrisos não demonstram a alegria que deveriam, e os olhos... eles não sorriem como os lábios. Eles não brilham, e te mostram que, no fundo, tanto faz que dia é hoje.
             Você sorri de volta, você tenta se contentar. Mas a sua voz, que queria gritar, nada mais é que um sussurro envergonhado, e você agora esconde atrás de um sorriso tímido a sua vontade de fugir. E os olhos... Se alguém se importasse o bastante para olhar dentro deles, veria que a luz que deles irradiava quando se abriram tornou-se opaca ao passar pela primeira pessoa, e se agora há algum sinal de vida, é a tristeza que eles refletem, é o pesar que encobrem.
              E então o dia que tanto demorou a chegar, agora parece não querer acabar...
             E aqueles que você esperava que se importassem, não estão com você. Eles não te abraçarão, nem te sorrirão com os olhos...

♪ "And then someday I will be free!"



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ANIVERSÁRIO - Fernando Pessoa

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,

O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

(...)

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

mercredi 18 août 2010

Um Embate Ético

O universo científico sempre passou por vários confrontos, mas a situação se torna mais polêmica a medida que novas tecnologias são desenvolvidas. Depois de temas como o aborto e a eutanásia, o que preocupa a população científica são as divergências a respeito de formas sintéticas de vida e clonagem - que não é um tema novo, mas voltou aos debates. Recentemente foi publicada uma experiência onde seres vivos foram reproduzidos em laboratórios ou, como preferiram dizer, a primeira criatura viva cujo pai é um computador. Agora o foco é a clonagem e a reprodução artificial humana. Novamente a grande dúvida: seria correto começar a vida dessa forma?
Os representantes das inúmeras religiões representam um grande rival a esses experimentos, alegando ser essa uma atitude que nega a ordem natural da vida. Cada ser humano deve nascer naturalmente em uma família, crescer e formar laços sociais. Não se é permitido "brincar de Deus", pois a vida criada artificialmente desregularia toda a sociedade atual e mexeria com a nossa consciência de indivíduo.
Muitas vezes, dentro da própria comunidade científica, se pergunta se realmente vale a pena continuar tentando. É clara à todos a possibilidade das experiências em humanos e, cientificamente, não há empecilhos a isso, mas há uma lei natural e deve ser respeitada. Questionam-se os benefícios que poderiam ser alcançados e se eles justificam toda essa reviravolta. O conhecimento pelo conhecimento pode ser atraente, mas em se falando de vida, os fins devem ao menos justificar os meios. Esse tipo de conquista traria avanços imensos à medicina, por exemplo. Mas então qual seria o fim disso? A imortalidade?
A verdade é que ninguém quer topar consigo mesmo caminhando por aí, tampouco dizer que nasceu num laboratório. Seria correto interferir em tudo dessa forma? Não temos esse poder. É só parar e observar o que fizeram aqueles que pensaram ter a decisão da morte nas mãos. A sociedade atual é imatura e inconsequente; por mais que esses pareçam passos insignificantes ou simples, é desse modo que se começa. Não estamos prontos para decidirmos entre a vida e a morte, sabemos disso e ainda assim agimos cruelmente e não sabemos até onde chegaremos nesse ritmo. O ser humano não é tão racional assim. O medo da morte existe e está nos cegando. Só que no fim optaremos espontaneamente por uma vida finita e cheia de riscos, a fim de aproveitá-la mais intensamente. Ninguém vai querer viver no mundo que está por vir. Não eu.